Player`s Corner

1ª Conferência

Atendendo à necessidade da existência de um espaço de debate centralizado nas questões que dizem respeito aos jogadores e ao futebol, o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) leva a cabo o ciclo de conferências “Player’s Corner”.



 



A primeira conferência do ciclo “Player’s Corner” decorreu no dia 18 de maio de 2017, no Pavilhão Multiusos de Odivelas. O tema escolhido foram as “Carreiras Duais no Desporto e no Futebol Português”. No evento estiveram presentes várias personalidades do mundo do futebol, entre as quais Fernando Gomes (Presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e membro do comité executivo da UEFA), Pedro Proença (Presidente da Liga de Clubes (LPFP) e membro da direção da EPFL), Hugo Martins (Presidente da Câmara Municipal de Odivelas), e João Paulo Rebelo (Secretário de Estado da Juventude e do Desporto).

Nos debates das Mesas Redondas marcaram presença Ricardo Bendito (representante do Comité Olímpico de Portugal), Pedro Dias (Federação Portuguesa de Futebol), Vítor Pardal (Direção-Geral da Educação), Joaquim Evangelista (presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol), Rui Jorge (atual selecionador nacional de sub-21), Vítor Baía (ex-internacional e campeão europeu pelo Futebol Clube do Porto), João Benedito (ex-guarda redes de futsal do Sporting CP e seleção nacional), Abel Camará (jogador do Belenenses), Moreira (jogador do Estoril), Bruno Avelar Rosa (Coordenador do Gabinete de Educação e Formação do SJPF), Duarte Lopes (Especialista no âmbito das carreiras duais no Estádio Universitário de Lisboa), António Carapinheira (Treinador e investigador no âmbito da transição de carreira em futebolistas profissionais) e Tarantini (jogador e mentor do projeto “Tarantini: A minha causa”).




A principal prioridade do SJPF é a educação e, por isso mesmo, tem vindo a desenvolver programas de formação e qualificação focados nas necessidades do jogador, tendo em consideração as diferentes fases da sua carreira desportiva. Evangelista reforçou o papel do Sindicato neste contexto, sendo o seu dever “disponibilizar e fomentar modelos de qualificação académica e profissional que permitam ao jogador encarar o seu percurso desportivo com maior segurança e assegurar o seu futuro profissional”. No entanto, nenhum destes objetivos poderia ser cumprido sozinho, dando o Sindicato destaque à parceria desenvolvida com a Federação Portuguesa de Futebol e a Liga Portugal e aos seus projetos educativos Anti Match-Fixing e de Educação Financeira para os Jogadores, respetivamente.

A recente eleição de Joaquim Evangelista para a FIFPro permite-lhe “um acompanhamento do que de melhor se faz nesta área e reproduzir em Portugal e garantir o acesso direto às instituições internacionais e à agenda internacional”.

Relativamente a esta primeira conferência, o presidente relembrou o centro da discussão, nomeadamente o investimento nas carreiras duais como principal instrumento para garantir ao jogador verdadeiras oportunidades de qualificação e, consequentemente, um futuro profissional. “É importante desmistificar o preconceito de que o jogador, durante a sua carreira desportiva, aufere rendimentos suficientes para assegurar o seu futuro. Grande parte da linha ativa faz-se para além das quatro linhas”, sublinhou.

                                                                     
 

Elogiou ainda o trabalho desenvolvido por Fernando Gomes, o projeto da FPF “Portugal Football School”, o trabalho da Liga em diminuir as diferenças através de um “diálogo social e efetivo”, a harmonia no trabalho com Pedro Proença e a importância que também dá à educação, a ajuda do Record em alavancar o projeto e dar-lhe projeção nacional e de como o trabalho em equipa ajuda os desportistas a tornarem- se “melhores nas suas diferentes dimensões”. Desta forma, o Player’s Corner poderá tornar-se “um espaço de referência”, deixando um convite para a próxima edição, estando na agenda do próximo Player’s Corner temas como “o futebol feminino e a igualdade, a integridade, boa governação, saúde mental e estabilidade financeira”.



 

Referindo-se brevemente à pós-graduação em Gestão e Organização do Futebol Profissional lançada pela primeira vez pela Liga Portugal, reforçou a importância deste género de iniciativas que “poderão possibilitar outras saídas profissionais aos atuais jogadores de futebol profissional”, em que trabalham juntamente com o SJPF, numa “relação sã”, ao defender valores como “talento, rigor, isenção e profissionalismo”. “O futebol será cada vez melhor se a Liga, os clubes, os jogadores, os treinadores e os árbitros, todos em conjunto mostrarem que somos uma só equipa”, terminou.

Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), falou de seguida, afirmando que a presença da FPF no debate é “para além de indispensável, irrecusável”, elogiando o trabalho do Presidente do SJPF, Joaquim Evangelista, e a sua recente eleição para a direção da FIFPro.

Sublinhou a “forma abnegada como tem defendido o jogador em todas as áreas das suas vidas. Na vida desportiva, lutando pelo exercício da profissão de jogador, em condições justas e dignas, ao mesmo tempo que defende a integridade de jogo frente aos perigos que o ameaçam. Nas vidas profissionais, apostando em áreas como a formação académica e profissional, a saúde ou a responsabilidade social.” Seguidamente falou da preocupação da FPF no âmbito das carreiras duais e de como a recentemente inaugurada “Portugal Football School” visa “oferecer uma formação que prepare academicamente e profissionalmente os jogadores para outras carreiras além do futebol ou no futebol.”



Despediu-se oferecendo uma camisola da Seleção Nacional a Joaquim Evangelista, reforçando que o presidente do SJPF “tem sido claramente um dos grandes embaixadores do futebol português e da seleção nacional”.

De seguida discursou Hugo Martins, Presidente da Câmara Municipal de Odivelas, dando as boas-vindas ao novo Pavilhão Multiusos de Odivelas, onde serão levados a cabo “vários projetos não só no âmbito desportivo, como no plano cultural, social e empresarial”, transformando a zona de Odivelas “num centro de formação desportiva, educativa e coesão social”, referindo a importância das carreiras duais em período de finalização da carreira do jogador profissional de futebol e de como este novo projeto será importante por isso mesmo.

Por fim falou João Paulo Rebelo, Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, realçando igualmente a importância das carreiras duais, sendo “absolutamente essencial compatibilizar a carreira desportiva com a carreira académica” e de como deverão ser preparadas “durante o período em que há o exercício da prática desportiva”.

Relembrou a altura em que conheceu Vítor Pardal enquanto seu professor e de com o seu trabalho exemplar e preocupação de juntar a escola com a prática desportiva contribuiu e inspirou o lançamento deste projeto. No início, o projeto piloto foi lançado em quatro escolas, “mas no próximo ano letivo já vamos avançar para nove escolas, o que é muito significativo”. Reforçou que para que este novo projeto seja bem-sucedido, é importante não só centrar a atenção nas carreiras duais, mas também “estarmos próximos dos centros de alto rendimento, onde estão um número considerável de alunos desportistas que estejam nestas mesmas escolas”.

Deu-se então lugar ao debate nas mesas redondas. Discutiram-se políticas de conciliação entre o desporto de rendimento e a formação dos atletas, abordaram-se as carreiras duais na 1.ª pessoa e o processo de transição, bem como o papel das instituições desportivas na criação de um sistema mais favorável à promoção das carreiras duais.

O tema da Primeira Mesa Redonda foi as “Políticas de conciliação entre o desporto de rendimento e a formação dos atletas”, que contou com a participação de Ricardo Bendito, representante do Comité Olímpico de Portugal, Pedro Dias da Federação Portuguesa de Futebol e Vítor Pardal da Direção-Geral da Educação e Joaquim Evangelista.

O debate começou com Ricardo Bendito a fazer referência ao lançamento de um programa de bolsas de estudo para os atletas em preparação olímpica, que visa apoiar os estudos superiores e profissionais e que eventualmente será alargado para “atletas mais novos, considerados talentosos”, sendo importante “acompanhar de forma próxima”, saber se os estudos estão a correr bem e guiar os atletas.

Pedro Dias, da FPF, referiu a atribuição de bolsas de mérito académico e desportivo, “idealizando o plano individual de cada agente desportivo e a promoção de mecanismos de avaliação interna e externa e dos processos implementados para o apoio da carreira dual”, sendo o principal objetivo neste momento “tornar a frequência do ensino superior mais ajustada a estudantes que pretendam desenvolver um modelo de carreira dual” e “melhorar os mecanismos de comunicação interna e externa e apoio aos agentes, criando meios diretos de articulação entre as partes” para os praticantes desportivos de alto rendimento e que frequentam as seleções
nacionais.

De seguida interveio Joaquim Evangelista, reforçando novamente a educação como um fator fundamental para os jogadores de futebol e sublinhando que o Player’s Corner assenta em quatro grandes pilares: escolaridade obrigatória, desenvolvida através do Programa Qualifica, a qualificação superior, através do acesso de jogadores a cursos superiores e protocolos com a Universidade Politécnica em todo o país, a formação própria e em parceira e o pilar financeiro para os jogadores que não tenham possibilidade de continuar a sua formação, onde o Sindicato poderá fazê-lo na totalidade ou ajudá-los a suportar esse encargo.

Durante o debate falou da posição estratégica e importante apoio da FPF, respondendo a questões acerca da dualidade de carreiras, realçando a importância da formação e como terá de ser deixada para trás a “visão retrógrada” de que para que um jogador se possa concentrar na sua carreira, teria de deixar os estudos de lado.



Foram então discutidas as carreiras duais na 1.ª pessoa na Mesa Redonda 2, que contou com a participação de Rui Jorge (atual selecionador nacional de sub-21), Vítor Baía (ex-internacional e campeão europeu pelo Futebol Clube do Porto), João Benedito (ex-guarda redes de futsal do Sporting CP e seleção nacional) Abel Camará (jogador do Belenenses) e Moreira (jogador do Estoril).

Rui Jorge confessou que viveu “a carreira sempre intensamente e sem preocupação quanto ao futuro” e que o ambiente familiar em que cresceu foi bastante decisivo para o seu futuro, pois “obrigaram-me a ficar na escola e a não desistir. Com 14 ou 15 anos, se eu decidisse se calhar tinha feito diferente. Por isso tenho de agradecer a quem me preparou para o futuro.” Ao tornar-se treinador, implementou a mesma lógica, o que se refletiu no seu trabalho no Belenenses. Rejeitou a hipótese de treinos matinais para dar oportunidade ao plantel de não faltar às aulas.

Vítor Baía, por sua vez, partilhou a sua experiência de voltar à faculdade e como os seus novos colegas reagiam à sua fama. “As pessoas tocavam-me e perguntavam "És mesmo tu?”, confessou. Falou ainda do Europeu sub-16 em 1986, quando se apercebeu que a Escócia estava um passo à frente, onde recorda ter encontrado um professor, no dia de folga da seleção, a ensinar à equipa os módulos que iriam perder durante o mês de competição e de como esse acontecimento lhe aguçou a curiosidade pela Gestão Desportiva.

João Benedito falou da complexidade de um fim de carreira e de como, de repente, deixam de haver ordenados. “Não fazia ideia do que ia acontecer. Deixei de jogar em junho e em julho deixei de receber. Passei a ter o meu pé-de- meia e a ser o meu empregador”, recordou. “Soube que o Rooney juntou 54 milhões e numa manhã gastou 500 mil no casino. Era bom que os jogadores conseguissem juntar os 500 mil numa vida! Mas quantos conseguem fazer esse pé-de- meia?”, questionou. Alertou ainda para a necessidade de “mostrar aos atletas o que pode acontecer se não pensarem desta forma”.

Moreira explicou a sua situação em que deixou a escola “porque não dava para conciliar”, estando apenas agora a estudar através do Programa Qualifica levado a cabo pelo SJPF. Deixou o conselho aos jogadores jovens para não fazerem aquilo que ele fez e continuarem a estudar.

Abel Camará partilhou também o momento em que percebeu que deveria fazer uma mudança na sua vida. “Não pensava desta forma, mas mudei. Via o Ricardo Dias a despachar-se no fim dos treinos [do Belenenses] para ir para a faculdade. Dizia-me que o futebol não durava para sempre”.

A seguir ao intervalo, o responsável pelo departamento de educação do SJPF, Bruno Avelar Rosa, apresentou o Projeto GOAL (Gamification and Online Activities for Learning to Support Dual Career of Athletes), financiado pela Comissão Europeia, através do Programa Erasmus+ para o desporto, que o SJPF integra de forma estratégica no contexto da sua política de apoio e promoção das carreiras duais.

“O Projeto GOAL irá promover a construção de um programa educativo online, baseado numa abordagem pedagógica denominada ‘gamification’, que consiste na aplicação dos princípios de evolução, desenvolvimento e vinculação presentes nos jogos de computador a outros contextos de aprendizagem”, explicou o coordenador do Gabinete de Educação e Formação do SJPF.

Através deste projeto, os atletas no ativo e retirados terão o apoio necessário para promover a sua carreira profissional fora do contexto desportivo. “Este projeto vai potenciar nos atletas e ex-atletas o desenvolvimento e aprendizagem daquelas competências laborais que lhes permitam organizar, planear, antever e enfrentar o seu futuro com maior confiança e qualificação”, afirmou.

O Projeto GOAL consubstancia um programa de formação online e gratuito, dirigido a atletas e ex-atletas das diferentes modalidades desportivas.
Além do SJPF, são parceiros deste projeto, financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Programa Erasmus+, a Universidade Aristóteles de Salónica, a Universidade de Coventry, a Fundação para a Investigação da Universidade de Nicósia, a Associação Espanhola de Jogadores de Futsal, a Associação Espanhola de Jogadores Profissionais de Basquetebol, a Fundação V4 Sport e a Confederação Europeia das Associações Nacionais de Jovens Empreendedores.


Por fim, deu-se lugar ao debate da Mesa Redonda 3, onde se discutiu, no âmbito das carreiras duais, o processo de transição. Contou com a presença de Bruno Avelar Rosa, Duarte Lopes (especialista no âmbito das carreias duais no Estádio Universitário de Lisboa), António Carapinheira (treinador e investigador no âmbito da transição de carreira em futebolistas profissionais) e Tarantini (jogador e mentor do projeto “Tarantini: A minha causa”).

“Se há jogadores que têm problemas financeiros e ganham muitos milhões, o que farão aqueles que não ganham?”, começou por questionar Duarte Lopes.

Tarantini, por sua vez, confessou querer ser um exemplo não só para os colegas de equipa, mas para outros jogadores também, afirmando que poderá passar sérias dificuldades no final da carreira. De forma a prevenir isso mesmo, concluiu o mestrado em Desporto em 2014. “Mais de 90% dos jogadores vão ter de continuar a trabalhar para sustentar as famílias. Vale a pena investir nisto. Acredito que sou melhor jogador pela formação que tive, pelo conhecimento do jogo que passei a ter, pelos treinadores
que tive”.

António Carapinheira reforçou a importância da partilha entre os vários órgãos que defendem o jogador e o futebol, de forma a chegarem a conclusões e soluções concretas. “O pós-carreira é tudo o que vem a seguir, é um processo que vem desde lá de baixo. É importante a salvaguarda de todas as posições, é importante os clubes estarem preparados”, rematou. Deu como exemplo as perguntas que fazia aos diferentes jogadores que estavam a terminar a carreira e como todos chegavam à conclusão que o futebol era a sua vida e paixão e que “não sabiam fazer mais nada”. Neste momento recorda que é importante voltar a investir na formação.

Por fim, Paulo César, da Câmara Municipal de Odivelas e José Carlos Ferreira (Vice-Presidente do SJPF) encerraram o 1.º Ciclo de Conferências “Player’s Corner”.


É ainda importante referir, em nota final, que os participantes no ciclo de conferências inscreveram-se de forma gratuita e receberam um certificado com 0,8 créditos (componente específica) para efeitos de formação contínua dos treinadores de futebol.