“Formação e apoio aos clubes são as prioridades da AF Porto”


O presidente da Associação de Futebol do Porto, Lourenço Pinto, fala sobre as prioridades da associação, o momento atual do futebol português e a importância da AF Porto para o desenvolvimento regional.

A AF Porto é das mais antigas do país. Que momentos destacam como marcantes para a afirmação da associação
Felizmente foram muitos e extraordinários os momentos marcantes da Associação de Futebol do Porto. Momentos de afinco, de dedicação, de galvanização, de solidariedade e de verdadeiro e apaixonante amor ao futebol. Mas também, e seria incompreensível ignorá-lo, momentos de marcante sofrimento que só o ânimo de todos os cavouqueiros que deram o seu esforço e abnegação pelo associativismo conseguiu ultrapassar. Destaco, contudo, três momentos de enormíssimo significado para a AF Porto:

- O primeiro, situa-se nos idos 31 de março de 1914. Dando bom seguimento às excelentes relações que a AF Porto vinha mantendo com as suas congéneres de Lisboa e de Portalegre e com o escopo de estimular e regulamentar em Portugal a prática do futebol, decidiram, em conjunto, pela fundação da União Portuguesa de Futebol, hoje, Federação Portuguesa de Futebol. Foi o início de uma nova era.

- O segundo, que é também elemento de forte orgulho, está umbilicalmente ligado aos anos de 1976 e 2008, com a inauguração dos primeiro e segundo edifícios da sede social da associação, ímpar em todo o país. Com efeito, encontra-se excelentemente equipada em termos de estrutura e de meios técnicos e humanos. Foi um esforço próprio da AF Porto mas que frutifica, permitindo que nas suas instalações seja ministrada formação a atletas, dirigentes e massagistas, bem como a comunicação por moderna videoconferência com todas as instâncias desportivas e proporcionadora de conforto e bem-estar de todos os que a si se dirigem;

- O terceiro é o momento apoteótico da celebração do centenário da AF Porto. Viveram-se momentos emocionantes que louvam e glorificam a maior Associação de Futebol de Portugal e, por esta, todos os clubes associados, atletas, dirigentes, árbitros, treinadores, funcionários, enfim, todos os que amam e vivem o futebol.

Enquanto presidente da AF Porto, como analisa o atual momento do futebol português e crescente tensão entre os vários intervenientes?
O atual momento do futebol português deve ser visto como desafiante para se fazer mais e melhor. Porque é nos momentos de maiores dificuldades que mais garra e paixão se deve alimentar. É pois premente e curial encarar-se os problemas de forma digna, séria e empenhada. Com respeito pelo próximo. E sobretudo com respeito pelos valores do futebol, fonte inesgotável de verdadeira solidariedade quando seriamente aproveitada.

Quais os desafios e as prioridades da AF Porto?
O maior desafio que sem dúvida se coloca à AF Porto é dinamizar, motivar, apoiar e formar os jovens, pois neles está o futuro do futebol e do país. Isto sem prejuízo da dedicação que a AF Porto tem relativamente a todos os escalões de competição e que apoia desde tenra idade até idade madura. Por isso, as prioridades da AF Porto são a formação; o apoio aos clubes para criação de infraestruturas que fomentem boas condições para a prática do desporto; a galvanização e sensibilização das instâncias governativas (centrais e locais) e empresariais para apoiar a causa nobre do Futebol.

Qual é a importância da AF Porto para o desenvolvimento regional?
A AF Porto apoia os clubes e, por via deles, expande o desporto, luta contra o isolamento de que sofrem algumas zonas geográficas do nosso Norte; promove o intercâmbio desportivo e cultural. Evita assim a exclusão social criando condições humanas e estruturais para que tal ocorra, ou surja o menos possível, contribuindo para a formação de idóneos e exemplares cidadãos.

Quantos praticantes federados e clubes existem na AF Porto?
Na época desportiva 2016/17, a AF Porto licenciou cerca de 31.000 atletas, 340 clubes que intervieram em 64 provas distritais, disputando mais de 800 jogos semanais. Os nossos árbitros, largas centenas (perto de um milhar), que formamos com elevado esforço, mas muita dedicação, dirigiram 4, 5 e 6 jogos semanais. Um desafio que levamos a braços empenhadamente.

Os clubes do Porto têm dificuldade ao nível do recrutamento de jogadores?
Essa é uma realidade decorrente do nosso empobrecimento demográfico. É preciso todo o empenho e carinho das massas associativas e dirigentes para angariar e motivar os atletas para jogar. Implica uma logística e organização no dia-a-dia muito difícil de compatibilizar com a azáfama diária em que vivem as nossas famílias e os poucos recursos económicos e logísticos que normalmente têm. Por outro lado, muitas crianças frequentam escolas de futebol como atividade extracurricular, existindo aqui uma nova realidade, com novas regras, a que todo o tecido de recrutamento de jogadores tem de se adaptar.

O futebol feminino tem crescido em Portugal nos últimos anos. A AF Porto tem acompanhado esse crescimento?
É de salientar o enriquecimento e desenvolvimento que tem denotado o recrutamento de jogadoras femininas. Também a este nível, as mulheres têm mostrado o seu talento, capacidade de sacrifício e espírito de equipa que seguramente darão frutos no futuro. A AF Porto tem apoiado entusiasticamente esse crescimento, certa de que a igualdade de género será uma realidade enriquecedora no âmbito do futebol, ainda que tenhamos sempre em conta as especificidades de cada atleta. E já o faz desde a época 1978/79, com maior envolvimento a partir da temporada 2000/2001. O número de atletas femininas na AF Porto tem aumentado tendo, presentemente, cerca de 1.100 e pensamos, até final deste mandato, ter mais do que 2000 atletas filiadas. Para isso, não regateamos esforços junto das escolas, das universidades, das pequenas comunidades e bairros sociais, no sentido de sensibilização das jovens para a prática do futebol concedendo apoio, quer nas inscrições, quer nos seguros, lutando pela redução dos custos, quer na concessão de bolas e equipamentos. Não podemos olvidar – e seria grave injustiça se o fizéssemos – o inestimável contributo que nos (e aos clubes) é concedido pelas autarquias do distrito.

Do ponto de vista da sustentabilidade financeira como olha para os clubes do Norte?
Os clubes do Norte, como creio acontecer com a generalidade dos clubes do país, são fortes, tenazes, lutadores. Encarnam, pois, toda a garra e coragem que o futebol lhes imprime. Claro que se debatem com dificuldades financeiras. Os tempos não são de fartura e quando as famílias têm de fazer economia, por vezes o desporto sai a perder, como atividade e como lazer. Por outro lado, a nossa realidade sociológica tem-se alterado ao longo dos últimos anos e a exigência de qualidade que se faz aos clubes constitui uma forte pressão para o seu melhoramento e consequentemente para a sua sustentabilidade financeira. Mas temos de olhar para esta questão e para os clubes do Norte com esperança e orgulho. Têm sabido inovar, melhorar, buscar soluções financeiras. Vejam, por exemplo, a criação de Escolinhas de Futebol que tanto dinamizam o desporto. E a AF Porto tem feito sérios esforços para auxiliar essa sustentabilidade, fomentando o apoio de entidades públicas e privadas, celebrando protocolos para apoio financeiro, entre muitas outras medidas.

E o fenómeno dos resultados combinados, como o encara?
Como cidadão e como jurista encaro este fenómeno com muita preocupação. Todavia, como qualquer mal, tem de ser erradicado pela raiz. E, imediatamente. Nesse aspeto, a AF Porto não tem e nem terá a menor piedade. Doa a quem doer.

Que relação tem e como tem visto a atuação do Sindicato dos Jogadores no futebol português?
Só a palavra sindicato contém em si mesma a ideia de justiça e de direito que advém da sua própria constituição: sin, significa justamente e dikê, significa regra, lei, justiça, processo de justiça em comum, etc. Só as sociedades totalitárias é que negam a quem labora o inalienável direito à defesa dos seus legítimos direitos. Logo (e volto a repeti-lo) como cidadão e como jurista sou um defensor acérrimo dos sindicatos e da atividade sindical. Este entendimento não me coibiu, porém, de, durante a integração do Sindicato dos Jogadores como sócio da Federação Portuguesa de Futebol, passando a fazer parte da sua Assembleia-Geral, colocar algumas reservas por considerar que este não era o local adequado para a resolução de conflitos, nomeadamente, de índole laboral. Todavia, fui-me apercebendo e constatando do papel ativo do Sindicato dos Jogadores de futebol na defesa intrínseca dos direitos dos seus representados, quer nos litígios laborais, quer na negociação e feitura contratação coletiva, quer no encontro de soluções com as entidades patronais, quer no relacionamento com os clubes e com os seus parceiros na Assembleia-Geral da Federação e, em consequência de tão laboriosa e respeitável conduta, dissipei as reservas tidas. Temos uma excelente relação com o Sindicato dos Jogadores, vendo-o como parceiro ímpar na resolução dos problemas que se colocam ao desporto e muito em particular aos jogadores. Tem sido notável o auxílio do Sindicato dos Jogadores, superiormente dirigido pelo seu Presidente, Joaquim Evangelista, na resolução pacificadora de conflitos laborais e o seu apoio aos jogadores que enfrentam dificuldades, nomeadamente em situação de desemprego.