Academias de futebol: aquisição de competências e talentos ou génese de lesões e frustrações?


O desporto, e nomeadamente o futebol, ajuda a criança a desenvolver as capacidades físicas, promover o exercício, fazer amizades, divertir-se, aprender o espírito de equipa e as regras do desportivismo e, finalmente, a incrementar a sua autoestima.

A atitude stressante, a competitividade e o “ganhar a qualquer preço”, comum no reino dos atletas profissionais, afeta o mundo do desporto infantil e juvenil.

Este ambiente, muitas vezes patológico, e as atitudes e comportamentos inerentes, quando transmitidos às crianças, poderão marcar a atitude e o desempenho, ao longo da sua vida desportiva.

Muitos formadores (treinadores) ignoram que, até aos 11 anos nas raparigas, e 12 anos nos rapazes, o futebol deverá contemplar, apenas e tão só, a ativação gestual, o divertimento e a aprendizagem do treino com uma carga horária que, no máximo, deverá corresponder a um número de horas semanais igual à idade (não esquecendo a atividade lúdica normal e os tempos de atividade física escolar).

Com efeito, muitas academias iniciam competição desportiva por volta dos 7 anos e excedem, por vezes largamente, as cargas recomendadas para estes escalões etários esquecendo que a capacidade de reservas de glicogénio nos músculos e no fígado é limitada nas crianças, que as limitações do treino láctico antes dos 16 anos, são reais (incapacidade de produção de ácido láctico como medida de proteção) e que a maturidade hormonal é insuficiente antes da puberdade (baixo nível de testosterona).

Por tudo isto a criança é rápida e explosiva..., mas pouco resistente, é limitada em termos de “endurance” e, finalmente, é mais sujeita a lesões, e patologias, relacionadas com o crescimento.

O paradigma mudou, as lesões graves nas crianças futebolistas são cada vez mais frequentes e englobam fraturas, lesões musculares, lesões da cartilagem, roturas ligamentares e outras lesões de sobrecarga (que nos aparecem todos os dias), já para não falar nas repercussões psicológicas da criança rejeitada, pressionada ou ignorada.

As nossas crianças não estão preparadas para trabalhar nem em endurance, nem em resistência e, se calhar, não estão preparadas... para trabalhar.

Assim, há que evitar especialização desportiva antes da puberdade, procurar o equilíbrio entre o aporte e os gastos energéticos, promover uma avaliação e seguimento clínico, fisiológico, morfológico, psicológico e motivacional rigoroso, tendo sempre presente a especificidade lesional, os gestos e atitudes terapêuticas adequadas, e minimamente agressivas, e a prevenção como regra. Os pequenos futebolistas agradecem!