“Não pode valer tudo para atingir os fins”


Presidente do SJPF e o clima de guerrilha instalado no futebol português.

O presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), Joaquim Evangelista, concedeu uma grande entrevista ao jornal Record, publicada na edição desta terça-feira, na qual aborda os vários assuntos da atualidade.

O clima de guerrilha instalado no futebol português, a criação do Fundo de Pensões e a nova sede do Sindicato são alguns dos temas analisados.

Aqui fica a entrevista na íntegra: 

O presidente da FPF escreveu um artigo no qual alertou para os sinais de alarme no futebol português. O Sindicato apoiou, mas agora o que espera que aconteça?
O Sindicato subscreveu, desde a primeira hora, a tomada de posição do Dr. Fernando Gomes. O clima de tensão que atualmente se vive no futebol português tem impedido um debate sério sobre os problemas que o afetam. Espero que todos os agentes desportivos e, em especial, os dirigentes dos clubes tomem consciência das suas responsabilidades e assumam cabalmente o mandato para o qual foram eleitos. Basta de enviar recados através de terceiros e fora dos locais próprios. É hora de os subalternos assumirem o seu lugar e os líderes a sua responsabilidade.

Há forma de combater este clima de guerrilha institucional?
Só com diálogo e procura de consensos podemos esperar que esta guerrilha termine. A superioridade de um líder está em saber dialogar, sobretudo nos momentos mais difíceis e com quem não queremos. Eu, em representação do Sindicato, assumi sempre esse compromisso e têm de reconhecer que já tive interlocutores bem difíceis. Com alguns deles mantenho hoje uma relação de amizade. Não confundir o plano pessoal e profissional é fundamental. O respeito entre os competidores é o mais importante princípio para a sobrevivência da modalidade.

Acredita que é possível reverter a situação?
Estamos a atingir um ponto de saturação e começa a sentir-se a descrença das pessoas. Não podemos deixar que isso aconteça, no futebol não pode valer tudo para atingir fins ou justificar insucessos. Dito isto, as instituições desportivas têm também a responsabilidade de lutar contra o sentimento de impunidade que parece existir no futebol. A lei e os regulamentos devem ser aplicados de forma célere e eficaz.

Fernando Gomes referiu que este estado de coisas é muitas vezes "inspirado em dirigentes com as mais altas responsabilidades que potenciam o ódio e a violência" para esconder insucessos. Podemos concluir que Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho e Pinto da Costa são estes grandes responsáveis?
Seria demasiado redutor apontar o dedo aos presidentes dos chamados três grandes, mas a verdade é que, pela dimensão das instituições que representam, têm uma responsabilidade acrescida na situação atual do futebol português. Cada tomada de posição, cada omissão ou cada mensagem transmitida através de intermediários nos meios de comunicação têm consequências enormes.

O que lhe inspira maior preocupação?
O que me choca é que clubes desta dimensão prefiram fechar-se em si mesmos e ‘disparar’ quando ‘atacados’ por outros, em vez de se sentarem à mesa com quem tutela o fenómeno e contribuírem para soluções. Pelo meio continuamos a ter problemas estruturais do nosso futebol, como a perda de competitividade, ausência de regras de boa governação, ameaça à integridade, a asfixia financeira e controlo de terceiros, licenciamento deficiente ou incumprimento salarial, mas ninguém parece querer saber, como se cada clube pudesse sobreviver apenas a dominar o mercado ou a competir sozinho.

Sente-se igualmente atingido, ou melhor, acha que tem contribuído de alguma forma para criar focos de instabilidade nas relações institucionais?
Enquanto for presidente do Sindicato, há uma premissa da qual não abdico: identidade. Não deixo de dizer o que penso nos locais próprios e a quem de direito. O confronto é leal, frontal e genuíno. Do Sindicato todos esperam uma voz singular. Por vezes seria mais fácil simplesmente ignorar e seguir a maioria, mas enquanto representante dos verdadeiros protagonistas, aqueles sem os quais não há jogo e não há negócio, não deixo de defender os seus interesses. Apesar de tudo, sei que não trabalhamos sozinhos e para concretizar os objetivos institucionais temos de dialogar, criar pontes, obter consensos, contribuir para o presente e futuro da modalidade.

Em que medida então o Sindicato pode atuar na pacificação do futebol?
O nosso objeto e os nossos interesses estão bem definidos e não se alteram em função do momento ou do interlocutor. Sabendo isto, as pessoas sabem com aquilo que podem contar. Quer junto da FPF, quer junto da Liga, que representa os clubes profissionais, estaremos sempre abertos ao diálogo e à procura das melhores soluções para os jogadores e para o futebol português.

E sugere alguma medida concreta?
Enquanto membro do Conselho Nacional dos Desporto e por considerar que o poder político tem uma palavra a dizer sobre os problemas que afetam o desporto, entendemos que este órgão deve ser reformado e ter poderes que lhe permitam intervir, ativamente.

Acha então que o Governo deve intervir?
O Governo e os grupos parlamentares que integram a Assembleia da República devem exercer o seu magistério em diálogo com as instituições desportivas. O exemplo que foi dado com a aprovação da nova lei de combate à corrupção desportiva deve ser seguido noutras matérias. Para legislar bem e de acordo com as necessidades específicas de cada setor, é preciso conhecer a realidade de quem nele atua.

Há muitas medidas que não se tomam por receio dos grandes clubes?
Há, pelo menos, muitas medidas que não logram obter sucesso por serem boicotadas pelos clubes, em geral.

Uma das propostas de Pedro Proença é criar um órgão onde terão assento clubes e associações de classe e até o Governo para debater o futebol português. Este Conselho Superior merece a sua aprovação?
Qualquer tentativa para sentar à mesa aqueles que têm o poder, efetivo, de alterar o estado atual do nosso futebol é sempre bem-vinda. Estamos disponíveis para integrar essa plataforma de diálogo e queremos, sobretudo, do lado dos clubes uma posição concertada e um compromisso efetivo para encontrar soluções. Chega de ‘dar uma no cravo e outra na ferradura’. E chega de órgãos de ‘fachada’. Tem de haver consequências.

Como classifica a relação entre patronato (Liga) e o trabalhador (Sindicato) durante este mandato: boa, razoável ou má?
A relação que mantemos com a Liga no mandato atual é boa, no sentido em que existe respeito mútuo e frontalidade. Queremos uma Liga forte, capaz de cumprir a difícil tarefa de ser a voz concertada dos clubes profissionais. Temos sabido dialogar naquilo em que entendemos ser necessário dialogar. Obviamente que existem muitos temas sobre os quais gostaríamos de obter da parte da Liga um compromisso maior, mas falamos, como bem disse, de uma relação entre os representantes do patronato e os trabalhadores, com tudo o que isso implica para a pacificação das relações laborais desportivas.



“Ataque aos árbitros é o exemplo máximo da apologia do ódio”

As maiores vítimas deste clima de guerra têm sido os árbitros. São uma classe desprotegida?
Indiscutivelmente. O ataque aos árbitros, no seu bom-nome e no seu profissionalismo é o exemplo máximo da apologia do ódio que tem sido bandeira dos clubes em função da sua situação desportiva em cada momento. Em Portugal não há uma preocupação genuína com os erros cometidos pelos árbitros ou com o nível que apresentam, mas apenas um aproveitamento político das fragilidades deste setor para justificar qualquer insucesso desportivo. É muito difícil ser-se árbitro neste contexto.

Mas não me respondeu à questão concreta...
Apesar de tudo, é uma classe protegida, pela APAF, pelo Conselho de Justiça, pelos clubes, pelos diversos agentes do futebol. A arbitragem é o poder maior do futebol português. Todos querem agradar-lhe, todos querem seduzi-la, todos ambicionam controlá-la. Nessa medida é protegida. Foi a classe que mais progrediu nos últimos anos. E ainda bem. Infelizmente há uma relação bipolar com a arbitragem. De ódio e amor!

Esta semana, ficámos a saber os valores pagos aos árbitros. Quer comentar?
Não contem connosco para essa discussão. O argumento financeiro utilizado, sob o anonimato, é de quem já não tem mais nenhum argumento válido para atingir os árbitros. Temos uma relação frutífera com a APAF, com o Conselho de Arbitragem, sou o primeiro a fazer a defesa dos árbitros, não me incomoda o que eles ganham. Não vamos por aí… Sinceramente, acho que devem ganhar mais.

Uma das grandes novidades da época foi a introdução do vídeo-árbitro. Como avalia o comportamento deste sistema?
O vídeo-árbitro, e a sua introdução, é um passo importante para acautelar a verdade desportiva. Contribui, definitivamente, para diminuir a margem de erro, logo a sua implementação deve, na minha perspetiva, ser apoiada. As polémicas que até agora surgiram foram mais para alimentar o ataque entre os clubes do que para fazer qualquer tipo de reparo aos aspetos em que o sistema implementado deve melhorar.

Há uma certa divisão até entre os jogadores sobre a utilização do VAR. Tem ideia se é de facto apreciado pela maioria?
Como tudo o que é novo, a utilização do VAR gera diferentes opiniões e até desconfiança, especialmente para os jogadores que vivem cada lance dentro das quatro linhas, sendo os verdadeiros destinatários destas decisões. Ainda assim, penso que a maioria dos futebolistas vê maiores benefícios na implementação deste sistema do que desvantagens.

O VAR deve ser credor de maior investimento ou ficar-se-á apenas por uma experiência sem êxito?
Tudo dependerá da seriedade com que os agentes desportivos, e os clubes em particular, quiserem tratar este tema. Como disse, o VAR contribui para assegurar a verdade desportiva e dá um reforço de confiança à equipa de arbitragem para a tomada de decisões. Na minha opinião, o VAR deve ser olhado com espírito crítico, mas construtivo, para que possa melhorar e tornar absolutamente claro o método para a sua intervenção.

A Liga tem um presidente que é um ex-árbitro. Admite poder vir a exercer cargo fora do âmbito dos jogadores?
O meu compromisso é para com os jogadores e os interesses da classe. Este espírito de missão mantém-me focado no trabalho que estou a desenvolver e nos objetivos que, ainda, espero alcançar. No final de cada mandato faço um balanço do trabalho feito. Admito continuar a trabalhar com sentido crítico sobre a política desportiva, em geral, e sobre os problemas do futebol português, a dizer o que penso e a dar o meu contributo. Veremos o que o futuro reserva.

Foi no Record que apresentou o projeto da nova sede do Sindicato. Em que pé estão as obras e quando é que se mudará para Odivelas?
As infraestruturas desportivas do complexo em Odivelas estão a evoluir a bom ritmo, foi realizada a instalação do relvado e em breve serão concretizadas as obras de construção da nova sede social. Contamos mudar para a nova casa do Sindicato entre fevereiro e março de 2018. A nova casa é um espaço multidisciplinar, de aproximação à comunidade e valorização do jogador.



“Fundo de Pensões é resposta à incerteza da profissão”

O Fundo de Pensões para os profissionais de futebol vai ser finalmente uma realidade. O que o justifica?
Trata-se de um projeto promovido pelo Sindicato que, à semelhança do que acontece em toda a Europa, atenta à natureza da profissão, de desgaste rápido e curta duração. Entendemos que os praticantes com estas características devem estar protegidos na eventualidade de doença, desemprego, em particular no momento da transição ou no fim da carreira. O que fizemos foi estudar o que se faz nos países europeus e desenhar uma proposta concreta para a nossa realidade.

Há outras razões para promover esta solução?
Além de procurarmos assegurar a transição e o fim de carreira, preocupam-nos a fragilidade financeira do atleta, a baixa escolaridade e elevado nível de iliteracia financeira, a concentração de elevados rendimentos num curto espaço de tempo associados a investimentos de risco. Consequentemente, a situação de insolvência, o aumento do número de divórcios e a inadequada gestão patrimonial durante o casamento concorrem para a necessidade de uma resposta a montante.

O Fundo é uma grande conquista?
É um passo muito importante, que tem merecido o nosso empenhamento. Neste momento, existem condições para concretizá-lo. Garantimos o apoio da FPF e convidámos a Comissão de Atletas Olímpicos, representativa dos praticantes das demais modalidades.

O que há de específico na proposta?
Este Fundo de Pensões, se a proposta merecer acolhimento legislativo, além de instrumento de poupança, vai permitir ao atleta resgatar esse montante no final da carreira desportiva (35 anos) e permite ao atleta deduzir até 50 por cento das verbas afetas ao Fundo ao seu rendimento bruto. É a resposta à incerteza da profissão.

Os jogadores vão deixar de contribuir para a Segurança Social e o IRS?
Não. É importante deixar claro que as contribuições para a Segurança Social e IRS não sofrem alterações. Estão garantidas. O que se permite é que, paralelamente, atentas as características da profissão e a necessidade de dar resposta num momento concreto da sua atividade, se possa contribuir para um regime complementar.

Qual o papel da Federação Portuguesa de Futebol neste projeto?
O apoio da FPF, do ponto de vista político e financeiro, é fundamental. É assim nos países em que existe um Fundo de Pensões para os jogadores. Temos consciência de que este projeto tem grande importância no desenvolvimento do desporto profissional em Portugal e é nossa intenção convocar os parceiros institucionais e os agentes desportivos, em especial os atletas e os clubes, dando a conhecer o projeto e as suas implicações. Até ao momento jogadores e clubes têm manifestado o seu apoio incondicional.

Quando é que os jogadores poderão escolher este regime?
Acabámos de assinar um protocolo com a FPF. De seguida vamos fazer chegar a proposta ao Governo, aos grupos parlamentares, clubes e associações. O Fundo será constituído de imediato nas condições legais existentes, e logo que aprovada a proposta do Sindicato proceder-se-á a essa alteração, o que compete ao Governo e grupos parlamentares.

Presidente do SJPF e o caso Adrien: “Caímos no absurdo”

Adrien Silva está sem jogar. Como se pode resolver uma situação destas?
O caso do Adrien Silva é um exemplo paradigmático do que vai mal com o sistema de transferências da FIFA, cuja legalidade a FIFPro pôs em causa em 2015, através de uma queixa apresentada na Comissão Europeia. Caímos no absurdo e parece que o único problema é o facto de as janelas de transferências se prolongarem para além do início da competição. Pergunto: em que é que a autorização de inscrição do Adrien Silva pela FIFA comprometia a estabilidade da competição? Ou se faz sentido matar o princípio da liberdade de trabalho para defender uma situação como aquela que sucedeu com o Adrien? E, já agora, quem assume a responsabilidade pelo prejuízo que esta paragem forçada representa para a carreira do jogador? Uma situação destas só se resolve com razoabilidade e com uma reflexão profunda sobre um sistema em falência, que carece de profundas alterações.

“Cristiano está preocupado em ser melhor todos os dias”

Cristiano Ronaldo já respondeu em tribunal por graves problemas com o Fisco espanhol. É desprestigiante para o jogador português?
O Cristiano é um exemplo, em diferentes planos. Não conhecemos os detalhes do processo desencadeado em Espanha mas, daquilo que nos é possível conhecer, não temos dúvidas de que não houve qualquer intenção de defraudar o Fisco espanhol. O Cristiano, tal como muitos outros jogadores de futebol, está preocupado com o seu trabalho, em ser melhor todos os dias, e com a sua família. Questões como a gestão patrimonial ou o cumprimento de obrigações fiscais são delegadas em assessores, esses sim com meios para decidir sobre estas questões que se revestem de grande complexidade técnica. Acredito que esteja surpreendido e naturalmente preocupado com as acusações em que se viu envolvido, mas sei que tudo fará para repor a legalidade, se é que foi infringida.

O Sindicato prestou-lhe algum apoio?
O nosso apoio ao Cristiano Ronaldo é incondicional e, pessoalmente, não creio que este episódio seja desprestigiante para o jogador e homem que ele é. As questões financeiras e a iliteracia manifestada pelos jogadores de futebol nesta matéria não deixam de nos preocupar. Foi com essa consciência que abraçámos o projeto ‘Todos Contam e no Futebol Também’, em parceria com o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros. Um jogador formado integralmente é uma pessoa mais consciente e capaz para tomar decisões. É uma mais-valia para o clube e para o desporto.

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