Carla Cristina: 20 anos a defender as redes


Ex-jogadora em entrevista à revista W.

Quem conhece o futebol feminino sabe que poucas se igualam à qualidade de Carla Cristina enquanto guarda-redes.

Começou no Futebol Benfica na época de 1995/96 e jogou no 1.º Dezembro desde 1997 até ao ano da sua retirada, em 2011.

A ex-jogadora fala-nos do novo capítulo da sua vida, longe dos relvados.

Qual a melhor memória que tem da sua carreira?
Tenho memórias muito boas. No entanto, aquela que mais me marcou foi quando fui campeã nacional pela primeira vez no 1.º Dezembro. É a memória que guardo com mais emoção.

Quais foram os momentos mais altos e baixos da sua carreira?
A nível de resultados consigo apontar o menos bom. Foi num jogo da Seleção Nacional contra a Alemanha e perdemos 13-0. Foi o pior momento da minha carreira. Foi bastante mau, sendo eu a guarda-redes senti-me responsável. Os mais altos foram todos os momentos que pude jogar. Fui muito feliz enquanto jogadora.

Sente saudades dos relvados e de calçar as luvas?
Sinto saudades de algumas coisas, de jogar propriamente, já não. A vida mudou, houve outras coisas que também eram importantes que ocuparam o lugar do futebol. Guardo com muito carinho o futebol e as recordações que tenho. Saudades de jogar já não tenho assim tantas. Acho que fiquei completamente preenchida com o tempo que estive a jogar, que ainda foram muitos anos, foram 20.

Qual é a sua opinião sobre a evolução do futebol feminino?
Acho estupendo. As possibilidades que estão a ser dadas às jogadoras, que infelizmente não haviam na altura em que eu jogava, são muito importantes para o desenvolvimento da modalidade. Nota-se que a nossa Seleção consegue agora bons resultados e atingir uma prova de âmbito internacional, como o fez recentemente com a qualificação para o Europeu. Acho isso extraordinário e o apoio deve continuar a ser dado, sem dúvida. Ainda é pouco, mas já é notório que existe.

O futebol feminino evoluiu em que aspetos?
No meu tempo, comecei a jogar em campos pelados. Hoje em dia são campos sintéticos ou relvados. Isso é uma melhoria ótima para as jogadoras, porque “puxa” pela parte técnica, o aperfeiçoamento é muito mais fácil. Os campeonatos eram logo nacionais, não havia distritais e existia uma discrepância enorme entre as equipas, onde se ganhava 30-0, 40-0. Hoje em dia está mais equilibrado, o nível competitivo é muito diferente.

Portugal está bem servido de guarda-redes na Seleção Feminina e no campeonato?
Acho que sim. As guarda-redes portuguesas são muito boas. A Patrícia, a atual guarda-redes da Seleção, é estupenda, sinceramente. E conheço outras guarda-redes que participam no campeonato e reconheço-lhes bastante valor. Estamos muito bem nesse aspeto.

O 1.º Dezembro, apesar de já não existir, teve um papel importante no impulsionar do Futebol Feminino?
Tenho muita pena que o 1.º Dezembro tenha deixado de existir, mas isso era algo que sabíamos que podia acontecer a partir do momento em que deixássemos de ganhar ou a equipa ficasse diferente, deixando de atingir alguns objetivos. Provavelmente seria fácil a equipa desaparecer e foi o que acabou por acontecer. Na altura, o 1.º Dezembro enquanto ganhou, somando vários campeonatos, talvez uns 13 consecutivos, e várias Taças de Portugal, umas cinco ou seis, foi uma equipa muito importante na sua época. Antes disso houve o Boavista que também foi uma equipa muito importante, que conseguiu ganhar durante 11 anos consecutivos o Campeonato Nacional. Por isso sim, na sua altura o 1.º Dezembro foi uma equipa muito forte e poderosa e tinha as melhores jogadoras, sem dúvida alguma.

Ainda existe uma grande desigualdade de género no universo do futebol?
Essa desigualdade é indesmentível, em todos os âmbitos. A nível profissional isso acontece. É a nossa realidade, é a nossa cultura. Vejo com bons olhos algumas alterações que estão a ocorrer no futebol feminino, que me levam a crer que as coisas podem evoluir. Demoram muito tempo, acho que temos de ter essa consciência, mas é possível alterar.

Sente que o recente sucesso da Seleção Nacional se deve, em parte, ao trabalho desenvolvido pela sua geração?
Sim. Nem que seja pelo facto de não termos deixado a modalidade acabar. Apesar disso, deve ser dado o mérito a estas jogadoras porque foram elas que o conseguiram atingir. Nós tentámos, não conseguimos e elas chegaram lá. O mérito é inteiramente delas. Mas não se podem esquecer das pessoas que lutaram durante anos para que a modalidade não acabasse, para que continuasse a haver qualidade nas seleções e no campeonato.

Olhando para o que foi a sua carreira, sente que atingiu os objetivos pretendidos?
Sim, atingi os meus objetivos. Fui internacional, que era o meu grande desejo. Não interessa quantas vezes, para mim bastava uma, era só o chegar lá (risos). E consegui. Tive o prazer de jogar com as melhores jogadoras de futebol feminino que conheci. E uma delas foi a Carla Couto. Tive o prazer de partilhar momentos inesquecíveis com pessoas maravilhosas que nunca vou esquecer. E isso é o que levo do futebol, sem dúvida alguma. Muito mais do que os resultados.

Como está a ser o novo capítulo da sua vida, longe dos relvados?
É uma nova fase. Tive de me adaptar quando saí do futebol e foi um bocadinho difícil no princípio. Tinha uma rotina criada ao longo de 20 anos. Agora que já estou adaptada a esta realidade sinto-me bem. Continuo a praticar desporto, mas um desporto diferente. Não estou minimamente ligada ao futebol, também estou um pouco cansada, mas tenho a possibilidade de viajar, passear e estar com a família. Coisas que não conseguia fazer enquanto estava no futebol. É uma nova fase que me preenche, que me deixa feliz.

Para além de ter representado a Seleção Nacional, também foi treinadora de guarda-redes. Fale-nos um pouco dessa experiência.
Tinha muita curiosidade em saber como é que era ver o futebol do lado de lá, do lado do treinador. A Federação abriu-me essas portas e permitiu-me vê-lo por esse prisma. Foi gratificante, ainda para mais estando em contacto com jovens dos sub-17, ainda em formação, mas com imensa qualidade. Entre os dois, apesar de ter gostado de treinar, gostei muito mais de ser jogadora. Mas também foi agradável ver as coisas da perspetiva de treinadora. Continuar? Nos tempos mais próximos não é bem aquilo que pretendo, quero afastar-me do futebol agora. Mas quem sabe um dia…

Tem algum conselho que gostasse de deixar a esta nova geração de jogadoras?
Às guarda-redes e a todas as jogadoras: que sejam muito felizes a jogar, que façam aquilo que realmente gostam e se gostam do futebol que continuem. Eu acredito que o futebol feminino vai evoluir muito mais e vão continuar a ser dadas oportunidades e quem sabe, num futuro bem próximo, muitas mais oportunidades do que as que já têm. E que continuem a lutar.

O que acha do trabalho que a APJA e o Sindicato têm vindo a desenvolver na defesa e representação da jogadora?
Acho ótimo e maravilhoso. É por aqui que se começa. A possibilidade que as jogadoras têm de terem a sua identidade, de não serem englobadas num pacote no futebol. Porque existe o futebol masculino e o futebol feminino. São coisas completamente diferentes, queremos equiparar em alguns aspetos, mas há outros que não são equiparáveis. Acho importante haver essa sensibilidade por parte das pessoas, nomeadamente as que estão no Sindicato e que abriram as portas ao feminino, acompanham e tratam da evolução do futebol.

E relativamente à Revista W, acha que é uma boa iniciativa em prol do futebol feminino?
Claro que sim. É uma forma de divulgação importante. Já alguém dizia: toda a publicidade é positiva. Tive hipótese de folhear a primeira edição da revista e achei muito interessante. Vou ler com certeza e a partir de agora vai fazer parte da minha leitura habitual.


Perfil
Nome: Carla Cristina Trindade Aco Correia
Data de nascimento: 25 de maio de 1974
Posição: Guarda-redes
Internacionalizações A: 83
Ano em que terminou a carreira como jogadora: 2011
Clubes que representou: Futebol Benfica e 1.º Dezembro.

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