“Vemos muitos jogadores a terminar e depois não sabem o que fazer”


Guarda-redes do Paços de Ferreira está a completar o ensino secundário com o apoio do Sindicato.

O guarda-redes do Paços de Ferreira alerta os jogadores para a necessidade de se formarem.

Está a concluir o 12.º ano no Centro Qualifica, através do Programa de Educação do Sindicato. Como surgiu o interesse para voltar aos estudos?
Quando apareceu a oportunidade de completar os estudos através do Sindicato, vi logo a proposta com bons olhos. Acho que todos devíamos aproveitar esta oportunidade porque o futebol acaba muito cedo para nós e temos de ter outras áreas para, no futuro, quando terminarmos a carreira, podermos trabalhar.

Acha que faltam medidas que apoiem a conciliação dos estudos com a profissão de futebolista?
Vejo o exemplo de colegas que tive que estudavam na universidade e era extremamente difícil porque havia exames à mesma hora dos treinos e eles não conseguiam ir aos exames e deixavam cadeiras para trás. Acho que devia de haver um acompanhamento muito maior devido ao facto de a nossa carreira ser curta. As pessoas deviam ter isso em atenção porque é muito importante termos um curso quando terminamos a carreira. Vemos muitos jogadores a terminar e depois não sabem o que fazer. É uma coisa que devia ser revista.

Caso prossiga os estudos, qual é a área pela qual irá optar?
Sinceramente, ainda não sei. Mas será certamente algo a ver com o desporto. Como já pratico desporto há vários anos, será uma das áreas a seguir. Mas poderá aparecer outra que me interesse. Ainda é cedo para dizer.

A família e os clubes pelos quais tem passado têm-no apoiado relativamente aos estudos?
A minha família, sim. A minha namorada incentivou-me muito, tal como a minha irmã, que concluiu a universidade. Ela é professora. Elas deram-me muita força para terminar. Quando era mais novo, não achei que os estudos fossem importantes. Agora, com 28 anos, já penso de outra forma, também pela vivência com outros colegas, que sempre me disseram que devia terminar os estudos. O Paços certamente irá apoiar. Eles ainda não sabem porque cheguei agora. Começou tudo quando ainda estava em Coimbra, na Académica e, como toda a gente sabe, é uma cidade de estudantes e isso também puxou um pouquinho.

É visto pelos colegas de equipa como um exemplo a seguir?
Tenho quase a certeza que sim. Quando apareceu a proposta do Sindicato, fomos cinco ou seis jogadores da Académica. Isso influenciou um pouco. Indo alguns, vão outros atrás e isso poderá ser benéfico para todos.

Aconselha os colegas, principalmente os mais novos, a não abandonar os estudos?
Sim, aconselho. Acho que nunca deveriam deixar de estudar, poderão conciliar. Mesmo que seja difícil, com o tempo vão acabando os estudos. O importante é que não deixem a escola porque é mesmo muito importante. Quando somos novos não pensamos no futuro e o futebol passa muito rápido. Quando acabamos a carreira nem todos vamos ter um bom pé de meia para não fazermos nada ou ficar vários anos à espera que apareça alguma coisa.

Que idade tinha e em que ano letivo deixou os estudos?
Quando deixei os estudos fiquei no 8.º ano, tinha por volta dos 16 anos. Deixei os estudos porque queria só viver o futebol. Não fui logo para o futebol profissional, tive de trabalhar, fazer-me à vida, até que passado uns anos tornei-me profissional no Moreirense e, até hoje, faço do futebol a minha vida.

Abandonar os estudos precocemente é uma das maiores “pragas” para quem quer ser jogador profissional?
Depende. Na altura, a maior parte dos meus colegas também deixaram de estudar, tudo devido ao mesmo fator: o futebol. Acho que as pessoas deviam interessar-se mais pelos estudos porque, no futuro, vão ser mesmo muito importantes. Pode acontecer uma lesão, alguma infelicidade, e é preciso ter outras saídas.

Um jogador com formação académica pode ser melhor em campo?
Acho que não. Acho que é um dom que nós temos e a formação académica não influencia em nada.

Qual é a sua opinião sobre a atuação do Sindicato?
Acho que o Sindicato está a fazer coisas muito boas pelos jogadores. Estão a fazer um excelente trabalho, deviam continuar assim. Acho que deveria haver mais apoios para o Sindicato, a todos os níveis. Está sempre muito preocupado com os jogadores. Sempre que acontece alguma coisa, é o primeiro a dizer que está lá para nos ajudar.


Perfil
Nome: Ricardo Abreu Ribeiro
Data de nascimento: 27 de janeiro de 1990
Posição: Guarda-redes
Percurso como jogador: Moreirense (formação), Moreirense, Estoril, Académico de Viseu, Olhanense, Belenenses, Académica e Paços de Ferreira.

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