Um futebol que não pode ser indiferente


Há momentos que nos obrigam a parar e refletir sobre o caminho que queremos para o futebol português. Esta semana trago-vos quatro acontecimentos que, vistos em conjunto, revelam muito sobre a nossa identidade enquanto comunidade desportiva. O primeiro é sobre o Projeto Golo: futebol pela comunidade. O Sindicato, a Liga e o Record juntaram-se para promover o papel social do jogador e o impacto que este pode ter dentro e fora do relvado. Não basta celebrar golos: é preciso convertê-los em gestos que mudem vidas, nas escolas, nos bairros e em todas as causas invisíveis. O futebol tem alcance, voz e responsabilidade. Usá-los em benefício da comunidade é parte da missão coletiva do desporto.

O segundo é sobre o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial e o futebol tem de ser parte da solução. A luta contra o racismo exige ação permanente. No dia 21 de março, lembramos que cada ato sem resposta alimenta um problema que destrói carreiras e corrói valores. O futebol deve garantir ambientes seguros, onde todos, jogadores, treinadores, árbitros e adeptos, se sintam respeitados. Um futebol que exclui e discrimina só pode pertencer ao passado.

O terceiro acontecimento marca a despedida de Silvino Louro, que faleceu aos 67 anos após doença prolongada. Homem do futebol e figura maior entre postes e equipas técnicas, somou mais de 200 jogos pelo Benfica e acompanhou José Mourinho durante mais de 15 anos em clubes como FC Porto, Chelsea, Inter e Real Madrid. Era um profissional que unia pela sua generosidade, competência e carácter. A sua partida deixa-nos mais pobres e reforça a importância de valorizar quem dignifica o jogo.

Por fim, a Rita Fontemanha anunciou que terminará a carreira no final da época. Duas décadas dedicadas ao futebol feminino e dez anos no Sporting. Passou por Boavista, Atlético de Madrid e pela Seleção Nacional. Mostrou que o futebol é talento, mas também resiliência, sacrifício e liderança. Ao afirmar que “o futebol é sobre pessoas”, lembra-nos que são carreiras como a sua que inspiram jovens e consolidam o crescimento do futebol feminino.

Um futebol que se escreve no plural: o Projeto Golo aponta o caminho, o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial lembra-nos a urgência de determinados temas, a partida de Silvino Louro deixa-nos o inestimável legado da memória e a Rita Fontemanha deixa-nos a inspiração. O futebol constrói-se com causas, coragem, legado e futuro. Cabe-nos garantir que nenhuma destas histórias se perca.

Artigo de opinião publicado em: jornal Record (22 de março de 2026)

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