Quem controla os investidores?


Nota prévia, vários clubes a participar no Campeonato de Portugal não cumpriram com a obrigação de apresentação à Federação Portuguesa de Futebol, até 16 de março de 2026, da documentação comprovativa do cumprimento de obrigações salariais até final de fevereiro. Existem, por isso, plantéis com salários em atraso neste escalão. Entre casos pontuais a ser resolvidos e situações crónicas, há um que destaco por ilustrar de forma contundente a fragilidade do nosso sistema de controlo e escrutínio da atividade dos investidores. Além da identidade de quem investe, sabemos que garantias prestam, qual a proveniência do capital, que ligações têm a outras atividades, dentro ou fora do futebol, ou a quem podem ser exigidas responsabilidades em caso de incumprimento? A situação da Vilaverdense FC SAD demonstra que não.

Começando pelo processo de insolvência, na última assembleia de credores, que levava a votação uma proposta para limpar uma parte significativa das dívidas laborais, ficámos a saber que o investidor estrangeiro, responsável pelo financiamento da atividade desportiva esta época, abandonou o projeto. Fica agora em suspenso a solução para um passivo superior a 1,6 milhões de euros, aguarda-se a decisão do incidente de qualificação da insolvência culposa e questiona-se como foi possível neste clube repetir a mesma história, com as obrigações para o plantel da época em curso a deixarem de ser cumpridas porque o investidor falhou?

As despromoções desportivas não são suficientes para explicar esta situação. O problema está na gestão, mas também na facilidade com que um suposto investidor assume o controlo e canaliza recursos financeiros para um clube falido, desaparecendo do mapa quando, por algum motivo, a situação deixa de lhe agradar. Alguns preferem olhar para estes casos pontuais como um problema menor, que não deve ser confundido com a robustez do investimento no topo da pirâmide. Essa nunca será a minha visão. Está em causa a credibilidade do futebol português e a necessidade de criar mecanismos, objetivos, que permitam diferenciar quem pretende lavar dinheiro ou fazer negociatas, de quem vem para realmente criar valor, impulsionar os clubes e criar condições para o desenvolvimento dos atletas.

O atual sistema declarativo e de fiscalização falha, perante as práticas descritas e manifestos conflitos de interesses, em que se conjuga o investimento e a gestão com atividades paralelas de agenciamento, na utilização dos vulgarmente designados “jogadores do investidor”. Quem controla o investidor? Julgo que verdadeiramente ninguém. 

Artigo de opinião publicado em: jornal Record (29 de março de 2026)

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