Liberdade e cidadania desportiva
Assinalar o 25 de Abril e preservar a sua memória na consciência coletiva é um dever de todos os que valorizam a liberdade, igualdade e respeito pelo outro. O desporto é o expoente máximo destes valores, baseado na ética, na integridade e no mérito. Contudo, tem sido a caixa de ressonância de uma sociedade portuguesa intencionalmente polarizada pelo discurso político do ódio, discriminação e falsas narrativas que exploram o medo, o sofrimento e a degradação das condições de vida de uma parte da população.
No desporto em geral, e no futebol em particular, existe um lado obscuro marcado pela intolerância, violência e tribalismo acéfalo. O que vende são as grandes polémicas. A cultura de paixão e dedicação a uma causa comum é desintegrada pela visão exclusiva para o negócio. Os nossos jovens são cobaias daqueles que se autopromovem à custa das fragilidades do sistema.
Qual é, então, o nosso papel? Para contrariar esta tendência é preciso ter a capacidade e a coragem para intervir, desenvolver uma cidadania desportiva ativa que permita apontar o dedo aos comportamentos que não podem ser normalizados, educar e promover as boas práticas. Depois deste trabalho pedagógico, é preciso atuar ao nível repressivo, com sanções proporcionais, céleres e eficazes em sede disciplinar, contraordenacional e criminal.
Foi esse o mote da campanha 'STOP à Violência', promovida pela Federação Portuguesa de Futebol. A mensagem que conta com o apoio do Governo, da Liga, das associações de classe e das associações distritais é tão importante quanto o apelo que deixei aos dirigentes com maior responsabilidade para que contribuam com o seu discurso e exemplo para um país em que, apesar das rivalidades clubísticas, seja possível dialogar e manter uma convivência saudável.
Existe sempre uma escolha entre enfrentar os problemas de forma responsável ou cavalgar ondas mediáticas. O desfecho do processo disciplinar movido pela UEFA contra Prestianni reflete uma sanção pesada em resposta a uma acusação grave, de racismo, que não se veio a provar, sendo enquadrada numa conduta homofóbica que, infelizmente, é normalizada no futebol.
Nem o racismo devia ter sido desvalorizado, como vimos nalguns comentários após o incidente com Vinícius Júnior, nem um insulto homofóbico, agora comprovado, deve merecer complacência. Acima de tudo, com respeito pela presunção de inocência, os jogadores devem ser educados, e não cancelados, sobre as regras e comportamentos que não são tolerados. Finalmente, devem confiar num sistema que aplica a justiça e não reage, nem legisla, por impulso mediático.
Artigo de opinião publicado em: jornal Record (26 de abril de 2026)