Os 'soft powers'
No panorama desportivo internacional existem ações de negociação direta, em tese as mais indicadas para promover acordos através da contratação coletiva, sistemas de concertação social como o diálogo social europeu para o setor do futebol profissional, onde se envolvem todas as partes interessadas na reflexão sobre alterações a promover no setor e procedimentos judiciais que visam legitimar reivindicações não atendidas pelos organismos reguladores, de modo a criar uma vantagem negocial, como a ação que sustentou o caso Diarra ou a queixa na Comissão Europeia relacionada com os calendários nacionais que uniu FIFPRO Europa e Ligas Europeias contra a FIFA, no tema dos calendários.
À parte deste trabalho com maior visibilidade, existe outro que traz para o desporto a justiça social e o enquadramento dos direitos fundamentais dos atletas como garantias universais dos trabalhadores.
Num período em que é conveniente disseminar a tese do 'jogador marca', cujos rendimentos obtidos o tornam um produto sem direito a defender a sua privacidade, segurança, saúde ou bem-estar, importa colocar a discussão no patamar do qual nunca devia ter saído: qualquer trabalhador tem um conjunto de direitos que são inalienáveis.
Foi por isso que a FIFPRO e a World Players Association, num patamar de representação de atletas entre várias modalidades, participaram num importante trabalho junto da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a publicação do relatório, em março de 2026, com orientações para promover princípios e direitos fundamentais dos atletas profissionais no seu contexto laboral e eliminação do assédio e violência.
Um documento, cuja leitura recomendo, por sintetizar os problemas que marcam de forma transversal a realidade profissional dos atletas, convocando as respostas que diversas convenções da OIT, ratificadas pela maioria dos Estados, já consagram.
Envolver os Estados na proteção de direitos fundamentais que resultam da transposição de convenções internacionais, como acontece na Europa, por exemplo, com a Carta dos Direitos Sociais, é mais um 'soft power' que legitima a ação de todas as organizações que, de forma independente e responsável, representam atletas profissionais nas instâncias internacionais.
Nota final para enaltecer o regresso da FENAPAF à FIFPRO, como membro observador especial, e por inerência os 10.000 jogadores brasileiros representados pelos sindicatos membros desta organização. Um processo que acompanhei de perto e nos dá a certeza de que, sem abdicar de valores essenciais, seguimos unidos para ser a voz dos jogadores a nível mundial.
Artigo de opinião publicado em: jornal Record (10 de maio de 2026)