“Temos de ser radicais e punir a discriminação”


Internacional portuguesa Jéssica Silva em destaque na mais recente edição da revista W.

Nascida em Vila Nova de Milfontes, herdou dos genes do falecido pai, que era futebolista, a paixão pelo desporto-rei. Jéssica, que conhece por dentro as realidades sueca, espanhola e francesa, abordou temas como a discrepância “abismal” no tratamento do género, analisando o caminho que está a ser trilhado e falta ainda percorrer em Portugal. Os três primeiros meses de recuperação da sua grave lesão coincidiram com o período de confinamento, que foi autorizada pelo Lyon a passar por cá, depois de já ter preferido ser operada em Portugal, até porque o clube francês esteve em contacto com a FPF. Em agosto, viria a ser tornar-se campeã europeia de clubes e com toda a justiça: apesar da sua ausência da fase final da Liga dos Campeões feminina, disputada em Espanha, Jéssica participou em três jogos da prova, tendo mesmo marcado um golo nos oitavos de final.

Podemos começar pelo início: Vila Nova de Milfontes. Foi aí que começaste a dar os primeiros pontapés na bola? Como é que surge o futebol na tua vida?
Sempre joguei futebol, na escola, no recreio, na rua, à porta de casa, ia lá para o campo do Milfontes, o futebol já nasceu comigo. Mas só quando fui viver para Aveiro, especificamente para Águeda – a minha mãe casou-se e fomos viver para lá –, e aí, sim, começou o futebol a sério, passados uns anitos, em 2009. Mas sempre esteve muito presente no meu dia-a-dia, com os amigos ou mesmo sozinha.

Identificas algum momento em particular, ou foi uma coisa natural?
Foi uma coisa muito natural. O meu falecido pai foi jogador de futebol e eu sinto que me está nos genes, porque é o que a minha família me diz, sempre procurei algo esférico para dar pontapés, acho que foi algo que nasceu comigo. Depois no futebol federado é que comecei a aprender a jogar a sério.

Foi no Albergaria, certo?
Não, foi no Ferreirense, muita gente não sabe. Tento sempre lembrar, comecei no Ferreirense, estive lá duas épocas. Era uma equipa pequenina que estava no campeonato Promoção e, então, sim, depois fui para o Clube de Albergaria, que foi onde joguei mais temporadas. Sinto que é o meu clube do coração, onde cresci bastante como atleta e como pessoa. Foi, sem dúvida, o clube que me formou, não só na parte desportiva, como humana.

Houve alguém que tenha desempenhado um papel importante nesse percurso inicial e que tenha sido preponderante para o que se seguiu?
Claramente, a professora Paula Pinho, que continua a ser treinadora do Clube de Albergaria, assim como a Rosário, que era diretora, a team-manager da equipa. Foram pessoas que estiveram muito presentes na minha vida durante todos os anos que estive no Albergaria e me ensinaram muita coisa, quer na parte pessoal, quer na parte desportiva. Tenho consciência que evoluí muito como atleta com elas, cheguei a fazer muitos treinos extra com a professora Paula. Infelizmente, nem sempre tínhamos o campo disponível e havia ainda a dificuldade ao nível de horários, porque eu estava sempre dependente de boleias e assim, mas a professora Paula encontrava sempre forma de aprimorar as minhas capacidades individuais e é uma pessoa por quem tenho bastante carinho. Marcou-me bastante na minha formação e conhece-me bastante bem.

 

“Percebi os sacrifícios que tinha de fazer, do que tinha de abdicar e das valências que tinha de desenvolver para ser aquilo que queria.”

 

E quanto ao apoio familiar: esteve sempre presente ou foi uma barreira que teve de ser ultrapassada?
Tirando uma situação onde fui treinar a uma equipa, antes de começar a jogar futebol, sempre tive o apoio da minha família. Nunca tive a oportunidade de ter a minha mãe a ir ver os meus jogos, ou os meus irmãos, ter a minha família na bancada, só mais agora, quando temos jogos aqui em Lisboa, já tenho os meus tios a poderem ir ver. Mas foram-me seguindo sempre, mesmo que de uma forma mais distante, nunca me proibiram de jogar futebol, sempre o consegui fazer. Claro que foi sempre uma chatice chegar tarde a casa, com as chuteiras cheias de bolinhas de sintético, a minha mãe lá me chateava mais um bocado. [risos]

Emigraste para a Suécia com 19 anos: como é que foi essa experiência, como viveste esse período, a adaptação a uma nova realidade, tão jovem?
Na altura foi muito difícil, porque foi a primeira vez que saí da minha zona de conforto. Já não vivia com a minha mãe e os meus irmãos, é certo, mas sempre fui muito ligada a quem estava comigo. Quando fui para a Suécia nem tinha bem a noção para que equipa estava a ir, o Linkoping era uma das melhores equipas da Europa e a grande potência no campeonato sueco. E custou-me, porque não estava a jogar, era muito difícil: tinha 19 anos, que é uma idade jovem/adulta, mas sempre fui muito de casa, dos amigos, de me sentir em casa, mesmo na própria equipa e saí do contexto do Clube de Albergaria e apanhei-me ali na Suécia, foi complicada a adaptação. O facto de não estar a jogar também não ajudou. Mas agora olho para essa experiência de uma forma superpositiva. Aprendi bastante e estou consciente que só depois dessa experiência fiquei com a noção dos sacrifícios que tinha de fazer para ser jogadora profissional de futebol. Queria muito ter uma carreira internacional, em Portugal estava longe de imaginar que podia ser profissional. Sempre tive uma ambição muito maior e sabia que tinha de sair. Foi bom porque percebi os sacrifícios que tinha de fazer, do que tinha de abdicar e das valências que tinha de desenvolver para ser aquilo que queria. Foi bom, senti-me bem com a equipa, elas tratavam-me super bem, cresci como jogadora, mas tive momentos difíceis e acho que é na dificuldade que conseguimos despertar em nós algo que julgávamos não ter.

E a que nível de escolaridade chegaste?
Só fiz o 12.º ano. Com o estatuto de alta competição, ia para a faculdade, mas fui para a Suécia. Quando voltei a Portugal, não voltei a estudar. Agora, não é fácil, mas é algo que eu quero retomar, sem dúvida. Já não ia querer Ciências do Desporto, mas algo mais ligado à Comunicação, ao Marketing, às pessoas. Só pensava em algo ligado ao Desporto, mas as coisas mudaram…

 

“Continuam a existir pessoas que têm comportamentos racistas, não têm a noção do impacto que eles têm na vida de um jogador ou jogadora, de um atleta.”

 

Como vês o futebol feminino em Portugal? Pode ser encarado como um espaço de inclusão ou poderia ainda ser muito mais efetivo?
Claro que já é um espaço de inclusão, mas ainda há muito mais a fazer. Acho que está a crescer, porque as pessoas já olham para as mulheres de uma forma diferente, não só no futebol, mas no desporto em geral. Vejo com bons olhos o que estamos a fazer e sinto que estamos empenhados em valorizar a mulher no futebol e estão a ser dados passos importantes nesse sentido, mas sem dúvida que ainda há muito por caminhar. Comparativamente a outros países, ainda estamos a dar os nossos primeiros passos, bem dados. Mas é com orgulho que falo do futebol feminino português, porque nos últimos cinco anos houve um crescimento enorme da modalidade. As pessoas estão a fazer zapping e já param para ver um jogo de futebol feminino, por exemplo, já há interesse. Hoje em dia, é normal vermos num cartaz uma mulher com uma bola debaixo do braço ou no pé, já se veem imagens dessas na televisão, já se anunciam jogos… É uma questão cultural que aos poucos está a mudar e isso é positivo.

E face à tua experiência, que comparativo se pode fazer entre a nossa realidade e a de países como Suécia, Espanha ou agora França?
Julgo que estamos no bom caminho. Estamos ainda longe de algumas realidades, porque também somos um país mais pequeno e a mudança de mentalidades não se faz de um dia para o outro. Saiu há pouco um estudo, uma estatística que demonstra que há muito mais raparigas a aparecer que querem jogar futebol e isso denota que há também um interesse crescente por parte dos pais, que agora apoiam muito mais e permitem que as suas filhas joguem futebol. Nós, na Seleção, não duramos para sempre, e parece-me que há aí uma geração muito bonita que está a chegar, porque olhamos para as nossas sub-19, sub-17 e até mesmo as sub-15 e vemos miúdas com muita qualidade, muito talento e que já estão a ser trabalhadas desde muito novas. Agora, há formação, há clubes a investirem nessa vertente, a darem lugar às miúdas para jogarem futebol. Eu, com 19, 20 anos, procurei treinar num clube de rapazes, para fazer um treino extra, mas só um é que me aceitou, todos os outros recusaram. Tenho a certeza de que, se fosse agora, já não diziam “não”.

Ao longo da carreira, fosse no estrangeiro, ou mesmo em Portugal, sentiste algum tipo de discriminação?
Agora nem tanto, mas sobretudo no Norte, cheguei a sofrer racismo, sem dúvida alguma. Na altura, ainda chorava, cheguei a sair do campo, fui substituída e a árbitra, como a bancada era muito perto da linha lateral, acompanhou-me na saída, chegou a vir a polícia e tudo o mais, mas o racismo é algo que está sempre muito presente. Talvez haja cada vez menos, mas continuam a existir pessoas que têm comportamentos racistas, não têm a noção do impacto que eles têm na vida de um jogador ou jogadora, de um atleta. Quem diz racismo, diz qualquer outro tipo de discriminação ou preconceito, como aquele que estabelece que as jogadoras de futebol são todas lésbicas. Esse preconceito existe. Já me deparei com comentários do género e parece-me que as pessoas não têm noção do impacto que isso pode ter, discriminam de uma forma inconsciente. Mas tem necessariamente de haver uma punição, mecanismos que possibilitem que qualquer tipo de preconceito se dissipe e não exista no futebol, porque somos todas bem-vindas para acrescentar à modalidade, jogadoras, árbitras, dirigentes, público, qualquer agente desportivo. Todo o tipo de discriminação, seja de género, comentários machistas, sexistas, homofóbicos ou racistas é algo que existe, não só em Portugal, mas também em outros países. Também senti isso em Espanha, por exemplo, e não deve existir. Acho que tem de ser criada algum tipo de legislação para punir este tipo de situações. Deve ser criado um movimento, e nesse aspeto o futebol é um fenómeno muito forte, muito poderoso e pode ser um instrumento muito útil para acabar com todo o tipo de discriminação e preconceito.

 

“Ainda houve ali um momento de delírio, digamos assim, mas tive logo a noção da gravidade da lesão. Entrei no balneário a questionar-me: ‘Porquê eu? Porquê eu?’”

 

A denúncia dos casos que vão acontecendo deve ser o primeiro passo?
Sim, claro que sim. Não sei se com uma linha de apoio, de denúncia. Mas, por exemplo, numa rede social: se calhar, não conseguimos prender essa pessoa, mas o Facebook consegue banir esse perfil. Acho que temos de ser um bocado radicais e punir, porque já percebemos que campanhas como o “No to racism” são bonitas, são muito giras, mas não chegam, na prática. Tivemos este caso do Marega, foi feio, mas acho que até foi “bom” ter acontecido, porque andava por aí escondido e trouxe o tema do racismo para cima da mesa. Em Itália, por exemplo, é incrível o que se passa. Esses cânticos são frequentes e não há uma punição severa, como devia haver. Temos de ser radicais, não podemos permitir. Seja para o racismo ou qualquer outro tipo de discriminação. Mesmo para os árbitros. Lembro-me de estar a jogar no Norte e ouvir um comentário que até me custa estar a dizer: ‘Ah, vaca malhada!”, para uma árbitra que tinha um problema de pele. Até me doeu. Acho que qualquer comentário discriminatório ou redutor tem de ser banido. Falo do futebol porque é o meio em que estou inserida e como podemos ser um desporto tão mais saudável, custa-me muito.

Apoiaste a posição da Marta, jogadora do Brasil que recusou ser patrocinada durante o Mundial. Achas que ainda há um longo caminho a percorrer no que diz respeito à igualdade do género?
Sim, sem dúvida. A mulher deve ser valorizada face ao que dá à modalidade e a Marta provou a toda a gente que é a melhor de todos os tempos. Continua a provar que uma fora de série. Acho que não é só no futebol, é no desporto em geral: a mulher é subvalorizada. A posição da Marta mostrou a valentia dela, porque, mais do que para ela, fez aquilo também para as gerações seguintes e pela defesa do futebol feminino. Todas nós devíamos estar agradecidas, porque é uma forma de reivindicarmos o direito a que a diferença não seja tão acentuada. No Mundial, por exemplo: tivemos audiências incríveis, assistimos a bons espetáculos, vimos em ação jogadoras incríveis. Há qualidade. E a discrepância é enormíssima, abismal e não deve, não pode existir. Os jogadores, os homens, são sobrevalorizados. A diferença é exorbitante e acho que dá para equilibrar um pouco as coisas. Mesmo a nível de infraestruturas, de apoios: tem necessariamente de haver aqui igualdade. Já nem falo em termos salariais. Mas que não nos obriguem a jogar em sintéticos, que nos sejam disponibilizados balneários, que tenhamos a possibilidade de jogar em horários nobres, por exemplo. Há equipas que continuam a treinar às oito, nove da noite porque estão os rapazes a jogar e isso não é justo. Com as novas realidades com que me vou deparando, julgo que se vão esbatendo as diferenças e há interesse nesse processo, mas ainda é tudo muito dúbio. Por exemplo, no Albergaria, estávamos em contentores e os rapazes têm um balneário a sério. Qualquer organização, sejam clubes, Câmaras Municipais, Estado, devem arranjar soluções e meios para dar as mesmas condições que são dadas aos rapazes.

Na última época sofreste uma lesão grave, como ainda não tinhas tido na carreira (rotura total do tendão de Aquiles). Como é que enfrentaste esta contrariedade?
Na altura que sofri a lesão, ainda houve ali um momento de delírio, digamos assim, mas tive logo a noção da gravidade da lesão. Claro que me custou. Entrei no balneário a questionar-me: “Porquê eu? Porquê eu?” Sentia-me num momento muito bom, sentia-me melhor jogadora, o facto de estar na melhor equipa do mundo estava a dar-me enorme confiança para ajudar a Seleção. Estava num momento positivo no global e essa quebra doeu. Mas julgo que enfrentei bem a situação. Questionei tudo, mas no mesmo momento disse: “Quero ser operada pelo nosso melhor doutor”, porque já sabia que era o Dr. Noronha, “quero ficar em Portugal e depois voltar para recuperar o melhor possível”. Com esta situação do Corona, e não querendo parecer egoísta, até porque não há bons timings para sofrer uma lesão, mas a verdade é que custou menos, porque não estava a ver ninguém a jogar, as minhas colegas a competir. Tentei ver as coisas pelo lado positivo e recuperar bem, para recomeçar a época da melhor forma possível.

 

Corações com Coroa

Jéssica recebeu apoio da associação presidida por Catarina Furtado

Quando me apresentei à Associação Corações com Coroa era uma miúda, com as minhas fragilidades, estava a crescer mais rápido do que as outras, porque estava longe da família, nunca tive um background cheio de flores, e a Associação acompanhou-me sempre, esteve sempre ao meu lado. Deram-me uma bolsa de estudo, porque eu também apresentava bons resultados escolares, e tinha uma dinâmica de vida que não era propriamente fácil: viva no Porto, estudava em Aveiro, treinava em Albergaria, ainda fazia umas sessões de fisioterapia em Ílhavo, ou seja, chegava a casa à uma, duas da manhã e voltava a acordar às seis da manhã para apanhar o comboio para ir estudar e ter treino e tudo de novo. A bolsa foi importante não só do ponto de vista económico, mas também emocional e psicológico, porque estiveram presentes, ajudaram-me, apoiaram-me. Eu e a Catarina temos uma relação de amizade muito forte e as pessoas da Corações com Coroa estão muito ligadas ao meu percurso e a quem eu estou muito agradecida, porque tenho noção que me tornei uma mulher muito mais forte e positiva devido ao seu apoio. 

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