“Muitas conferências de imprensa que faço são direcionadas para dentro”


Treinador do Olympiacos, Pedro Martins, lecionou uma ação de formação sobre liderança.

Pedro Martins, treinador do Olympiacos, foi o formador da ação online “A Liderança no Processo de Treino no Futebol”, promovida pelo Sindicato dos Jogadores, que decorreu esta terça-feira, 16 de fevereiro.

Durante duas horas, Pedro Martins falou-nos daquilo que mais gostamos – futebol. Na formação, foram respondidas questões como “Qual o melhor tipo de liderança?”, “Deve a equipa técnica ter o mesmo poder que o treinador?” e até “Que tipo de comunicação mantém com o grupo de trabalho?”. O treinador português partilhou a sua experiência e explicou a sua forma de estar no futebol.

Começou por referir a importância de abranger todo o grupo de trabalho, onde se lida com diferentes personalidades, nacionalidades e, consequentemente, culturas. Pedro Martins diz que tem estratégias definidas para cada grupo e subgrupo de atletas, tendo em conta as características de cada jogador, fazendo inclusão de cada um no “grupo”, sem se perderem individualidades.

No entanto, questionado sobre como é possível gerir um grupo onde existam muitos jogadores com um grande ego, disse ao nosso site que “existem sempre jogadores de ego” e que esses jogadores “só olham por si e para terem rendimento, nós temos de ter algo para eles. Se ele achar que neste modelo de jogo, vai tirar partido das suas características e vai evidenciar-se, isso é importante para ele. Estas coisas acontecem. É um facto que não é fácil quando tens egos, e quando tens muitos, então se associarmos estes egos àqueles que gostam das coisas direitinhas, ainda maior o problema. Se nós juntarmos os egos àqueles que têm características de talento, selvagem, que gostam do caos, aí não os conseguimos controlar. Agora, isto tem muito a ver com a quantidade de egos que tens na equipa. Se tiveres muitos, para conseguires tirar partido de cada um deles, é complicado, porque eles vão-te exigir muita coisa para terem um alto rendimento. É esta a realidade, fazendo friamente uma observação mental e psicológica do caráter do jogador. Eu como não tenho problemas em conviver nem com talentos nem com egos, se não forem em grande quantidade, para mim não é um problema. Se não tiverem um bom rendimento é outro problema. O resto nós conseguimos gerir. Também tenho egos, como é evidente e cada vez que o nível aumenta, mais egos temos”.

Como é que um treinador chega a uma equipa e a consegue liderar? Primeiro, é importante criar empatia com o grupo. Empatia foi uma das palavras mais ditas por Pedro Martins ao referir-se a um novo começo de um treinador numa equipa, distinguindo-a sempre de simpatia. O primeiro passo para um treinador se assumir numa equipa é a empatia – com as ideias de jogo ou metodologias de treino, não com a pessoa.

Como exemplo, falou da sua primeira experiência pelo Marítimo, onde esteve durante algum tempo sem saber se seria o treinador definitivo ou se seria apenas interino. Aqui, para o treinador português, valeu-lhe a experiência enquanto jogador. Sem objetivos concretos, sem saber o futuro, não era possível liderar uma equipa. Estabilidade, objetivos e regras são fundamentais no processo de treino e liderança.

Regras era o que procurava o Olympiacos. Quando aceitou o desafio de ir para a Grécia, reuniu com a direção do clube, que deixou bem claro que queria um treinador que impusesse regras e soubesse liderar.

No seu primeiro ano, levou o Olympiacos ao segundo lugar; na época passada, conquistou o campeonato; este ano foi considerado o melhor treinador de 19/20 e leva já 14 pontos sobre o segundo classificado, PAOK, preparando-se para mais uma conquista.

Em relação às exibições, Pedro Martins diz que a equipa já entrou em “piloto automático” – já interiorizou o processo e o modelo de jogo, sabe o que o treinador quer e o que tem de fazer. Quando isto acontece, o tipo de liderança muda.

Agora, o treinador diz que tenta intervir o menos possível, que as palestras são mais curtas e fala-se apenas do jogo. Porquê? Porque é preciso ter em conta o desgaste físico e mental dos jogadores, especialmente numa época atípica como esta, com calendários sobrecarregados.

Questionado sobre a liderança da equipa técnica e até do capitão, Pedro Martins tem uma posição muito clara. Acerca do capitão, a longevidade é algo que não interessa. Quem escolhe o capitão é ele e essa decisão tem por base o perfil de liderança do jogador.

O capitão tem de estar em sintonia com o técnico, uma vez que é a extensão do mesmo dentro de campo e, portanto, tem carta branca para repreender ou dar indicações aos colegas sempre que necessário.

Quanto à equipa que o acompanha há dez anos, para Pedro Martins não há dúvidas: na sua ausência, têm tanto poder quanto ele. Considerando que a equipa técnica é a cara do treinador, e que no grupo há uma só voz, têm toda a liberdade para tomarem decisões ou ações sobre os jogadores sem serem questionados.

A comunicação é um ponto muito importante na liderança de um treinador. Pedro Martins admite não ter problemas em falar abertamente com os jogadores quando, por exemplo, estes querem saber o porquê de serem substituídos ou de não jogarem tão regularmente.

Neste espetro, entram também as declarações públicas de um treinador. Ao nosso site, o mister revelou que as intervenções que tem “para fora”, em entrevistas, na flash-interview ou nas próprias conferências de imprensa, têm muita influência no balneário e explicou o porquê.

“Mais do que aquelas frases que normalmente aparecem nos jornais, muitas das intervenções que eu faço são direcionadas para dentro. Há muitas conferências de imprensa que são direcionadas, ou para o meu grupo de trabalho, ou para a estrutura, ou para os adeptos. Seja o que for. Não estou a falar de um agradecimento ou isso, não. Há estratégias que nos permitem chegar lá e passar a informação que nós queremos. Sinceramente, volto a dizê-lo, muita da informação que passo, das observações que faço, por exemplo, no pós-jogo ou no pré, é muito direcionada para dentro. A minha grande preocupação é o meu grupo de trabalho.”.

A formação terminou com Pedro Martins a alertar para o facto de não podermos controlar tudo o que se passa no futebol, dando como exemplos a pandemia, o número de jogos e até a vida pessoal dos jogadores, mas que temos de arranjar sempre uma maneira de lidar e liderar nas várias condições.

Quinta-feira, dia 18 de fevereiro, há mais uma formação das 17h00 às 19h00, desta vez sobre “A Nutrição e sua Importância no Futebol”. O formador será Filipe Sousa, licenciado em Ciências da Nutrição, com passagens como nutricionista no FC Vizela e Shakhtar Donetsk.

A ação será transmitida através do Facebook do Sindicato dos Jogadores e do site do Record, media partner do Sindicato. Quem pretenda que seja creditada para o título de treinador (TPTD) deve inscrever-se AQUI para participação via Zoom. Será dada prioridade aos sócios do Sindicato dos Jogadores.

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