“Nunca baixei os braços. Tenho qualidade para jogar”


Depois de ter vivido um imbróglio jurídico, Amessan joga agora no Alcains, tendo-se estreado este fim de semana.

Vieste para Portugal ainda nos escalões de formação. Como aconteceu?
Estive numa escola de futebol, na Costa do Marfim. Foram lá procurar jogadores e foi aí que eu consegui um contrato para vir para cá. Foi bom ter estado cá a estagiar no Sporting, tinha 16 anos e fiquei um mês e meio. Depois voltei para a Costa do Marfim.

Quando regressas, em 2008, para assinar pela Académica, foi coincidência ou eles tinham-te visto quando estiveste no Sporting?
Gostaram do que viram em vídeo, mas já sabiam que tinha passado aqui por Portugal.

Apesar de depois teres sido várias vezes emprestado, ao Tourizense, Sporting da Covilhã, Créteil-Lusitanos e Arouca, foi nessa fase em que jogaste oito vezes na Primeira Divisão portuguesa. Como foi esse período na Académica?
Foi o André Villas-Boas que apostou em mim, uma experiência muito boa. Agradeço até hoje o que ele fez por mim, as coisas que aprendi com ele mudaram a minha maneira de jogar e de perceber o futebol. Um grande treinador e também um grande homem.

Quando sais definitivamente, para Chipre, o que é que te fez querer dar um rumo diferente à tua carreira?
Foi porque o AEL Limassol ia jogar a pré-eliminatória da Liga Europa, queria ter essa experiência. Comecei a jogar por eles, mas fui emprestado ao Ethnikos Achnas.

Depois voltas novamente a Portugal, primeiro para o União da Madeira, seguindo-se Famalicão e União de Leiria. O que é que te levou nessa altura a regressar?
Sinto muito, porque esse homem já não está neste mundo. Estou a falar do Vítor Oliveira. Ele ligou para mim, a dizer que estava no União da Madeira e se eu queria voltar a Portugal, para ajudar a equipa a subir para a Primeira. Eu disse que voltava, não havia problema. Em Chipre, o futebol era bom, mas é muito diferente. Gosto do futebol português, queria voltar e começar tudo de novo, foi por isso que aceitei.

As tuas filhas nasceram cá?
A mais nova sim, nasceu na Madeira. A mais velha foi na Costa do Marfim.

É em janeiro de 2017 que tudo começa a correr mal, quando vais para o Luxemburgo, onde assinas pelo Racing FC. Ao início ainda existiu uma fase positiva?
Saí do Leiria para lá porque o Racing ia jogar a qualificação da Liga Europa e falaram comigo. Era uma experiência nova e queria tentar. O treinador que estava lá gostava de mim, eu jogava, mas quando ele saiu tudo mudou. Não sei porquê. Até agora não percebo o que aconteceu.

 

“O clube nem me queria continuar a pagar, nem me libertava e acabei por falar com o Sindicato dos Jogadores, que me ajudou muito. Tentámos pedir explicações à Federação de lá. Só responderam que não podiam ajudar.”

 

Estavas lá com a tua família, sem receber há dois meses e meio e a treinar à parte. Sentias que se queriam livrar de ti?
Queriam, não queriam, não percebi nada. Quando o clube estava bem, metiam-me a treinar à parte. Quando o clube começou a ficar à rasca, meteram-me outra vez no plantel e conseguimos a manutenção. Depois o diretor desportivo falou comigo, “Se tens um clube interessado, diz-lhes para falar connosco”. E eu respondi, “Como assim?”. Ele disse que o meu contrato tinha mais dois anos. Estava definido que o contrato era até final do campeonato e depois tínhamos de falar para ver se continuava ou não. Só que, quando chegas ao Luxemburgo, é normal assinar logo por três anos. Depois o que aconteceu é que me disseram que o meu contrato não tinha terminado, que só podia sair com autorização do clube, se pagassem. Foi aí que os problemas começaram, porque o clube nem me queria continuar a pagar, nem me libertava e acabei por falar com o Sindicato dos Jogadores, que me ajudou muito. Tentámos pedir explicações à Federação de lá. Só responderam que não podiam ajudar.

O que é que fez com que, estando no Luxemburgo, te lembrasses de pedir auxílio ao Sindicato dos Jogadores de Portugal?
Foi quando voltei para cá. A presidente recusou pagar-me. Disse-lhe que podia ficar com o dinheiro que me era devido, se quisesse. Só que tinha de me libertar, aquilo que estava a fazer não era correto. “Não me queres pagar, não queres que fique no clube e não me queres deixar sair. Para sair, queres que um clube pague. Mas como assim, se tu não me pagas e eu já não tenho contrato convosco? Explica-me, que eu não percebo. E ela disse que no clube é ela que manda. Fizemos um acordo: se eu tenho de ficar, temos de nos sentar outra vez e falar. “Amessan, tu ficas, vamos dar-te X. Se quiseres ir embora, podes ir.” As leis do Luxemburgo criaram-me um grande problema.

Ela chegou a dizer quanto queria que um clube pagasse por ti?
Cem mil euros.

Tinhas empresário nessa altura?
Não. Fui para lá através de um treinador francês. Estava sozinho, até ser ajudado pelo Sindicato dos Jogadores.

Eram quantos jogadores profissionais no clube?
Éramos só três.

Ela achava que podias ser a galinha dos ovos de ouro para eles? Ou era racismo? O que é que podia levar a que a presidente se comportasse assim em específico contigo?
Eram dois aspetos. Ela não gosta dos gajos mulatos. E tinha um problema em particular comigo. Quando ela recusou pagar-me, até fui lá com a minha família e perguntei se precisava de pedir desculpa, apesar de não me lembrar de lhe ter faltado ao respeito.

Chegaste a ser colocado fora de casa?
Queriam. Só que o dono do apartamento já sabia da situação e recusou. Ele disse para ficar o tempo que quisesse até arranjar alguma coisa, mas eu só quis ficar uma semana, para preparar a viagem e voltar a Portugal com a família.

 

“A presidente desse clube, não tenho nada no coração contra ela. Nós fazemos tanta asneira neste mundo e Deus perdoa, porque é que nós não havemos de perdoar?”

 

Depois passas pelo Olhanense, que quando percebe que não te pode inscrever volta atrás na contratação. Nesse momento, onde é que foste buscar força para continuares o teu sonho de jogar futebol profissionalmente?
Nunca baixei os braços. Tenho qualidade para jogar. Fiquei a pensar na minha família, tenho duas filhas, que não pediram para vir ao mundo, então tenho de fazer tudo para as criar. Sei que Deus nunca me abandonou.

Quando tentas assinar pelo Onisilos, é já com o bilhete de avião comprado pelo clube cipriota, que te ia mandar de volta para Portugal, que recebem uma carta da FIFA a conceder o certificado internacional provisório, já no último dia de mercado. O Sindicato voltou a ajudar-te a desbloquear essa situação?
Sim, ajudaram-me e explicaram toda a situação ao sindicato de Chipre, quando cheguei.  Tivemos de avançar na FIFA. O Onisilos queria que eu jogasse rápido e tentou falar com a presidente do clube do Luxemburgo, só que ela disse que eu é que quis vir embora e pediu outra vez cem mil euros. Eles responderam que eu tinha o caso na FIFA porque ela não me pagava, como é que ela estava a dizer que pagava ao jogador? “Ou pagas ou ele não joga!” e desligou o telefone. O Sindicato de Portugal e de Chipre explicaram ao clube como agir e foi no último dia que conseguiram desbloquear a situação.

Como é que te sentiste depois de algo banal para qualquer outro jogador, o direito a jogar, finalmente te ser concedido, após um ano e três meses?
Fiquei feliz, deu-me mais força para continuar a jogar e fazer um bom campeonato.

Conseguiste corresponder, depois dessa longa paragem?
Sim, fiz quinze golos e duas assistências.

Durante todo esse período, em que além do teu problema tinhas uma família para sustentar, a raiva contra alguém que se comportava como se lhe pertencesses nunca se apoderou de ti?
Não. Fiquei com raiva comigo próprio. Nesta vida temos de saber fazer escolhas. Foi um erro, aconteceu e para mim já passou. A presidente desse clube, não tenho nada no coração contra ela. Nós fazemos tanta asneira neste mundo e Deus perdoa, porque é que nós não havemos de perdoar? É esse pensamento que eu tenho.

Sendo que nunca vais recuperar esse tempo que perdeste, aos 30 anos, sentes que ainda tens muito para dar?
Sim. Ainda não acabou.

E já pensaste o que vais fazer quando chegar o dia em que tiveres de pendurar as chuteiras?
Queria continuar a estudar. Não sei se é no futebol ou fora, mas quero continuar a minha formação.

Tens um irmão mais novo que também é futebolista. Já o avisaste de todos os cuidados que deve ter?
Sim, ele ainda está na Costa do Marfim e até quero ser o empresário dele, para não passar por essa fase que eu passei.

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