“O jogador português está muito bem-educado nesta parte da nutrição”


Filipe Sousa, nutricionista do Vizela e Shakhtar, lecionou uma formação promovida pelo Sindicato.

Na mais recente ação de formação online promovida pelo Sindicato dos Jogadores, contámos com a presença de Filipe Sousa, nutricionista do Vizela e do Shakthar e ainda jogador do Pevidém.

Deixando um elogio aos jogadores portugueses, que mostram interesse nesta matéria, Filipe Sousa alertou para o problema da sub e da sobrenutrição. Deixando a teoria de lado, a formação focou-se no ponto de vista real e prático.

Para começar, é importante que todos percebam que a nutrição está intimamente relacionada com a performance do jogador, daí a necessidade de os clubes investirem, e cada vez mais, nesta área. Foram então abordados quatro pontos chave: a nutrição no dia de jogo, a nutrição no dia de treino, composição do corpo e suplementos alimentares.

No primeiro grande subtema, os hidratos de carbono tomaram conta da formação. Já todos ouvimos falar da importância destes para os atletas, mas há mais por saber. Glicogénio muscular. Esta é a razão pela qual um atleta deve ter refeições ricas nestes hidratos. Glicogénio muscular não é nada mais que as reservas de hidratos de carbono no músculo e estes representam cerca de 60% a 70% da energia gasta num jogo de futebol. Quanto maior for a reserva de hidratos, maior é o glicogénio muscular e, por sua vez, maior vai ser a intensidade do jogador no que toca a corrida ou sprints e menor vai ser a fadiga. Há ainda regras para a ingestão de todos os alimentos e este grupo não foge à regra. O ideal é um jogador de futebol consumir diariamente entre seis a oito gramas de hidratos de carbono, por cada quilo que pesa. Este intervalo é simples de explicar: cada jogador tem de ter um plano específico que varia consoante o seu peso e posição no campo, por exemplo – um guarda-redes precisará de menos hidratos de carbono que um extremo.

Sobre quando deve ser feita a última refeição do jogador antes do jogo, Filipe Sousa deixou claro que o ideal é entre uma a quatro horas antes, cada clube ajusta aos seus horários, bem como ao horário de jogo. Clarificou ainda que os jogadores ingerem bebidas, barras energéticas ou fruta imediatamente a seguir ao aquecimento e ao intervalo.

Sobre a nutrição em dia de treino, há vários fatores que a vão influenciar, nomeadamente a fase da época em que nos encontramos. Se na pré-época tentamos aumentar a massa magra e diminuir a gorda, por exemplo, durante a época, o objetivo é manter essa massa magra e aumentar a força e a velocidade.

Questionado sobre a diferença entre o Shakhtar e o Vizela, Filipe Sousa diz que para além da cultural, a principal diferença é a educacional. “O jogador português está muito bem-educado nesta parte da nutrição, está muito interessado nas questões acessórias ao futebol, então está muito mais disposto a reter informação. No estrangeiro, como no futebol base não começam a incutir noções básicas de nutrição, não falam muito da importância das áreas acessórias ao treino, quando chegam ao futebol sénior já não reconhecem com a mesma facilidade o papel que nós estamos lá a desempenhar”.

Ao nosso site, esclareceu quantas refeições devem ser controladas pelo nutricionista, apesar de depender dos contextos e das dimensões de cada clube. “Nos principais clubes europeus, os jogadores almoçam todos os dias com a equipa, eventualmente, se for necessário, o clube também pode dar provisão do jantar e, além disso, fazem sempre estágio no dia anterior, ou seja, tanto as refeições do dia anterior, como as do dia de jogo, são asseguradas. Cá em Portugal, no contexto de Primeira e nalguns casos Segunda Liga, no dia anterior podemos ter só o jantar a ser controlado e depois a refeição do dia de jogo, dependendo também da deslocação, obviamente, mas sim, há um controlo das refeições, não só no dia anterior e no dia de jogo, mas também durante a semana se houver a política instalada e condições para tal. Acho que é algo muito positivo os clubes conseguirem fazer com que os jogadores almocem sempre nas suas instalações, porque reforçamos sempre a parte das escolhas, que são feitas pelos nutricionistas”.

Sobre a composição corporal, Filipe Sousa deixou claro que não há uma composição única, comparando Di Maria a Adama Traoré. Ambos os jogadores estão na sua melhor composição corporal e, como sabemos, são dois jogadores bem diferentes. O “ideal” é avaliado através da massa gorda e de outros valores da composição de cada um. Esta questão é importante pois uma composição corporal otimizada aumenta a velocidade, a força, a potência e a capacidade aeróbica do jogador, por exemplo, e reduz o risco de lesões.

Sobre os suplementos alimentares, foi dado destaque à cafeína e à creatina, um suplemento com efeitos rápidos e outro de uso contínuo. O mais importante a reter nesta matéria é o cuidado. Tem de haver um cuidado redobrado para ter a certeza de que todas as substâncias presentes nos suplementos são legais e cuidado nas dosagens, por exemplo, da cafeína. Os suplementos otimizam a performance do jogador e ajudam a atingir o objetivo nutricional. No entanto, há ainda outro tipo de suplemento: o placebo. Filipe Sousa falou-nos da forma como esse efeito é utilizado no futebol. Por vezes, um jogador acredita de tal forma que determinado alimento ou suplemento lhe dá bom rendimento, que mesmo que não sendo verdade, o melhor a fazer é manter esse hábito, uma vez que está a funcionar psicologicamente para o desempenho do jogador.

Por fim, Filipe Sousa falou-nos da dificuldade dos nutricionistas nos clubes. “Muitas das vezes um nutricionista é como um bombeiro que tem de apagar os fogos todos. Num clube, há tanta tarefa para fazer, que se depois vamos criar uma alimentação personalizada para cada jogador, que é o que o treinador muitas vezes quer, não há recursos nem meios para o fazer. Isto não quer dizer que o nutricionista não possa fazer um aconselhamento mais generalizado e que consiga perfeitamente dar respostas, nas poucas vezes que lá vai, que tenham impacto. O que acontece às vezes é uma sobrevalorização e atribuição de demasiadas tarefas que depois impedem de fazer outras coisas que poderia estar a fazer. Pessoalmente, prefiro guardar a maior parte do meu tempo para fazer um aconselhamento aos jogadores, muitas vezes com conversas absolutamente informais”.

A próxima formação tem lugar no dia 23 de fevereiro, terça-feira, das 18h00 às 20h00. “Podologia e Biomecânica no Futebol” é o tema e os formadores serão Pedro Roque, ex-fisioterapeuta de hóquei em patins do Sporting e CEO da Fisioroque e António Figueiredo, podologista, com formação na área do desporto.

A ação será transmitida através do Facebook do Sindicato dos Jogadores e do site do Record, media partner do Sindicato. Quem pretenda que seja creditada para o título de treinador (TPTD) deve inscrever-se AQUI para participação via Zoom. Será dada prioridade aos sócios do Sindicato dos Jogadores.

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