“Já passei por muita coisa, já lutei muito para desistir agora”


Gabriela Zidoi deixou a Ucrânia e regressou a Portugal para jogar no Condeixa.

Com a eclosão da guerra na Ucrânia, Gabriela Zidoi viu-se presa num país desconhecido, sem condições para regressar a Portugal. Depois de um pedido de ajuda, o Sindicato dos Jogadores, em conjunto com a FIFPro e o Sindicato Polaco, conseguiu trazer a jogadora de volta, ao país que já a tinha acolhido antes.

Agora, Gabriela Zidoi voltou aos relvados, estreou-se com a camisola do Condeixa e assegura que está pronta para voltar a lutar pelos seus sonhos profissionais.

Chegaste a Portugal ainda nos escalões de formação. Como surgiu a oportunidade?
O meu pai decidiu vir para Portugal e aí comecei logo a procurar clubes. Onde eu morava, no Brasil, não estava a ter oportunidades para sair dali e, então, como o meu pai veio para cá, disse que vinha também. Comecei a procurar equipas e encontrei o Hugo Duarte [Treinador do Futebol Benfica]. Mandei-lhe mensagem, ele disse para eu lhe mandar uns vídeos, mandei e, então, disse-me “vem cá fazer uns treinos para ver como é”. Eu fui e fiquei.

Jogar na Europa era algo que sonhavas para a tua carreira?
Sempre tive o sonho de jogar profissionalmente, fosse onde fosse. Eu só queria jogar. É o meu sonho de criança, tenho-o desde os meus 7 anos, altura em que comecei a jogar à bola. Consegui, graças a Deus.

Como é que foi a adaptação ao país e ao futebol?
No início foi complicado porque troquei toda a minha vida. Deixei amigos e parte da minha família no Brasil. Foi complicado, mas é tudo uma questão de querer. Se nós quisermos, conseguimos ultrapassar qualquer barreira. Foi difícil, mas deu certo. Dentro de campo também senti muita diferença porque lá no Brasil é um futebol mais solto, mais futebol de rua, cá é muito mais tático.

Do Futebol Benfica dás o salto para o Atlético, um clube com alguma história em Portugal, onde te estreias como sénior. Foi a estreia que imaginaste?
Não tinha perceção do que era o clube até lá chegar. Nunca tinha ouvido falar, não conhecia muita coisa. Fui para lá através do Hugo, que é um ótimo mister, tenho uma consideração muito grande por ele, ajudou-me muito, principalmente no início. Estive lá duas épocas, fiz muitas amigas, gostei muito de lá estar, muito mesmo. Foi ali que se abriram as portas para tudo. Subimos à Primeira Divisão, deu certo e foi ali que tudo começou.

Sempre planeámos tudo, toda a nossa saída, desde o tempo que podia demorar o comboio, que quantidade de comida tínhamos de ter…”

Ainda foram dois anos ao serviço do Atlético. Sentias que estavas em casa ali?
Sentia, sentia muito, acima de tudo pelas amizades que fiz lá. Isso ajudou-me muito.

No início desta época, saíste para a Ucrânia. Como surgiu e como encaraste a proposta do Kryvbas?
Terminei a época no Atlético com a subida de divisão e ainda não sabia para onde iria jogar, se ficava no clube ou não. Fui de férias para o Brasil ver a minha família e enquanto lá estava o meu agente ligou-me e disse “olha, há este projeto aqui, o que achas? Queres tentar, queres ver outro?”. Eu disse que não, que queria tentar, porque eu sou muito aquela pessoa que gosta de conhecer lugares, então, disse “vou tentar, vou ver como é e se não der certo, foi uma experiência”.

Foi acima de tudo por essa “experiência” que aceitaste?
Sim, foi por isso. Foi pelo começar a dar o primeiro passo na minha trajetória, na minha vida profissional. Foi o primeiro contrato profissional que eu assinei. Decidi que ia dar o primeiro passo e ver como era, até para ter aquele sentimento de realizar o sonho.

O rumor de uma possível invasão russa foi bastante falado durante algum tempo. Quando é que sentiram, na Ucrânia, que tal coisa poderia mesmo estar prestes a acontecer?
Umas duas ou três semanas antes do ataque, eu e mais duas brasileiras já tínhamos lido muitas coisas sobre isso. Já estávamos com aquele receio e a pensar “não, temos de ver isto, temos de ir embora”. Nós não sabíamos como seria, nunca tínhamos imaginado vivenciar esses momentos. Começámos a comentar com algumas pessoas do clube, dizíamos “olha, está a acontecer isto”, mas eles respondiam logo “não, não vai acontecer nada. Fiquem tranquilas. Isto já vem de 2014”. Ficámos mais tranquilas, mas mesmo assim, tínhamos sempre os nossos familiares no Brasil a enviar-nos mensagens a dizer “olha saiu isto”. Nós pensávamos “não, se isto está a sair no Brasil, é porque está a aquecer mais os ânimos”. Acabámos por decidir ficar lá, não sei se foi a decisão mais correta, mas foi a possível, foi o que podíamos fazer. Até porque o nosso salário era para ajudar os nossos familiares. Não é que isso valha mais que a nossa vida, mas como na altura eles [ucranianos] nos tranquilizaram mais, nós continuámos.

“Senti-me muito abraçada, mais por Portugal do que pelo meu próprio país. Estou muito grata ao João Oliveira.”

O clube sempre vos tentou aconselhar da melhor maneira? Ou da maneira que eles consideravam a melhor?
Sim, sim, sim. Eles deram-nos todo o apoio, mesmo durante todo o acontecimento. Casa, alimentação, todo o suporte. Tudo o que precisávamos eles davam. Mas eles não nos queriam deixar sair, primeiro por não falarmos a língua local, depois por ser perigoso, três brasileiras sozinhas, tentarem apanhar um comboio sem falar, sem conhecer nada.

Quando a invasão começou, tiveram o impulso de tentar fugir logo ou ainda acreditaram que as coisas poderiam não tomar as proporções que tomaram?
Não. Nós tentamos sempre manter a calma, ver todas as possibilidades. Nós sentávamo-nos a pensar “se formos por este caminho e fizermos isto, o que é que vai estar à nossa espera” ou “por que cidade é que devemos passar?”. Sempre planeámos tudo, toda a nossa saída, desde o tempo que podia demorar o comboio, que quantidade de comida tínhamos de ter… Foi tudo planeado, mas ao mesmo tempo não, porque iam acontecendo as coisas e tínhamos de alterar o que tínhamos pensado originalmente.

Gabriela, longe de casa, com apenas 21 anos, a correres atrás de sonhos e objetivos num país cuja língua não entendes. Como e onde arranjaste força para lidar com a situação?
Foi Deus, antes de mais, que está sempre comigo, depois o meu namorado e a minha família que sempre me apoiaram, sempre me disseram que eu ia conseguir, mesmo nos dias difíceis. Mesmo em dias que só pensas “quero desistir, quero voltar para casa, quero estar com a minha família”, eles estavam lá a dizer “não. Continua. Tu consegues. Tu és forte” e era sempre com esse apoio. Eles viam os jogos, diziam que tinha jogado bem, para eu melhorar isto ou aquilo. Esse apoio é fundamental.

E conseguiste sempre manter esse contacto com a tua família, mesmo quando estavam retidos no hotel?
Sim. No primeiro dia, quando aconteceu o primeiro ataque, estávamo-nos a preparar para ir para a Turquia, onde íamos fazer um estágio. Já tínhamos a mala pronta, íamos sair cedo, no dia 24 de fevereiro. Estava planeado sairmos por volta das 7h, 7h30, então às 6h30 tivemos uma reunião, pois tinham já saído notícias de que a Ucrânia tinha sido invadida. Eu estava ao telefone com a minha mãe, em videochamada, no preciso momento em que caiu a primeira bomba, na base militar junto ao nosso hotel. Foi a partir daí que propagou tudo. Mas conseguimos estar sempre em contacto, eles estavam sempre a manter-me a par das informações que saíam no Brasil, diziam-me para estar mais atenta a isto ou aquilo, para ver o que podia fazer. Os meus pais, o meu namorado… eles não dormiam, estavam sempre a mandar notícias para ver se nós conseguíamos sair de lá.

“O momento em que me senti mais segura foi quando me encontrei com ela [a voluntária], consegui respirar melhor.”

Apesar de teres jogado em Portugal, a tua nacionalidade é brasileira e estavas na Ucrânia. Pergunto-te, então, como é que surgiu o Sindicato português nesta situação?
Foi através do meu agente, que é uma pessoa incrível, não tenho nada a apontar. Desde a nossa primeira conversa que criámos uma ligação que não dá para colocar por palavras, de parceria. Ele entrou em contacto com muita gente. Parecia que era mais uma pessoa da minha família. Estava desesperado para me tentar tirar de lá. Ele entrou então em contacto com o Sindicato daqui, que por sua vez contactou o Sindicato da Polónia, que nos ajudaram muito. Senti-me muito abraçada, mais por Portugal do que pelo meu próprio país. Estou muito grata ao João Oliveira, ele mandava-me mensagens a perguntar como é que eu estava, sempre em contacto comigo, com estas pessoas. Foi uma ajuda muito grande, que eu não esperava, porque nem sequer é o meu país. Mas é aí também que consegues ver o carácter das pessoas, a compaixão pelo próximo, ajudar mesmo sem receber nada em troca. Estou muito grata a todos os que estiveram envolvidos, inclusive às pessoas que nos ofereceram os bilhetes para sair da Polónia.

Em que momento sentiste e pensaste “ok, já passou, estou a salvo”?
Quando cheguei à Polónia. Estávamos com uma voluntária do Frente Brazuca. Ela foi um anjo na nossa vida. Nós eramos para ir com algum pessoal do Brasil, mas aconteceram algumas coisas que nos fizeram desistir de ir com eles. Ligámos para ela e mesmo assim disse-nos “não, estou aqui para o que precisarem”. Ela foi-nos buscar, fomos fazer uma entrega de doações com ela, vimos crianças… foi uma experiência muito boa. Quando íamos para sair com ela disseram que assim não íamos conseguir, que os voluntários não tinham muito poder. Disseram que não íamos conseguir, que íamos passar frio e fome, que íamos ficar horas e dias na fila na fronteira. Graças a Deus não tivemos nem um minuto de fila. Passámos sempre pela esquerda, escoltadas pela polícia, não passámos frio nem fome. Estávamos ótimas. O momento em que me senti mais segura foi quando me encontrei com ela [a voluntária], consegui respirar melhor. O momento de passar pela fronteira, chegar ao outro lado e poder dizer à minha família “já saí. Já estou bem, só falta ir para casa”.

O teu objetivo foi sempre regressar a Portugal? Por que não ao Brasil?
Os meus pais estão aqui. O estado em que eles estavam… A minha mãe não comia, não dormia, só procurava notícias. Eles nem conseguiam conversar sem começar a chorar. Então, tinha de vir, para a minha mãe sentir que eu estava bem. Já não nos víamos há quase um ano. A minha escolha de vir para cá foi para tranquilizar os meus pais.

Agora estás de regresso ao futebol português e, inclusive, fizeste a tua estreia pelo Condeixa. Voltar aos relvados foi especial?
Foi. É uma sensação sem explicação. É o futebol que tira todo o stress da vida, todo o stress do dia a dia e toda a pressão que às vezes temos. Todas as preocupações que temos é o futebol que as tira. Quando estou lá dentro esqueço-me de tudo cá fora. Todos os problemas desaparecem. Quando estou lá dentro, às vezes, nem ouço os adeptos, nem o mister [risos]. Estou ali focada no que eu quero. É isto que sempre quis, o futebol é o meu sonho. Tenho ainda o sonho de chegar à seleção brasileira e vou continuar a lutar para chegar lá.

“É isto que sempre quis, o futebol é o meu sonho. Tenho ainda o sonho de chegar à seleção brasileira e vou continuar a lutar para chegar lá.”

Sentes-te já preparada, especialmente psicologicamente, para continuar a lutar pelos teus sonhos futebolísticos?
Não estou a 100% psicologicamente, mas tenho-me tratado. O Condeixa tem-me dado todo o apoio. Tenho tratado disso, às vezes é um barulho a mais que ouço e isso acaba por me deixar mais fraca mentalmente, mas eu hei de chegar lá. Eu sei que vai correr bem, isto é um processo. Tudo é um processo, então, acredito que com a ajuda que estou a ter, tanto da minha família como do clube, vou chegar lá rápido. 

O que esperas que o futuro te reserve?
Olha, espero conseguir destacar-me. Não por querer ser a melhor, mas pelos meus objetivos. Quero conseguir chegar à Seleção. Mesmo com isto que aconteceu, acredito que consegui mostrar quem eu sou e as pessoas começaram a reparar mais em mim e nas minhas duas colegas. Tivemos um pouco de visibilidade, não da forma que queríamos, mas foi importante e acabou por ajudar. Espero conseguir cumprir os meus objetivos e mudar a situação da minha família. Quero conseguir ajudar os meus pais que já não estão numa idade muito boa. 

Gabriela, para ti, desistir, nunca?
Nunca, jamais! Tenho lutado por isto desde os meus sete anos, lutava até com os meus irmãos, que não queriam que eu jogasse, porque na altura eram só homens a jogar [risos]. Eu treinava escondida, fazia muitas coisas para jogar à bola. Qualquer oportunidade que eu tinha de sair de casa era para jogar à bola. Já passei por muita coisa, já lutei muito para desistir agora. Desistir para mim nunca vai ser uma opção. Vou lutar até não aguentar mais, vou continuar porque é isto que me faz feliz. É o que me tranquiliza muitas vezes. É uma sensação inexplicável quando estamos lá dentro, mesmo quando as coisas correm mal… A vontade de treinar, de continuar é maior, porque temos objetivos e sonhos e se não corrermos atrás deles, nunca vamos conseguir chegar lá. Se eu desistir agora, não sei o que seria de mim. “Nunca mais vou jogar à bola”, não consigo, não conseguia. É algo que já está no sangue.

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