Dos relvados para a produção de azeite


João Afonso terminou a carreira de jogador em janeiro de 2017 para se dedicar ao Lagar do Vale de São Gião.

Na freguesia do Milharado, em Mafra, há um lagar de azeite que pertence a um ex-jogador profissional de futebol. Falamos de João Afonso, antigo defesa central, agora com 41 anos, que jogou na Liga Europa pelo Belenenses.

Fomos conhecer o seu projeto, como é que começou a preparar o pós-carreira e a paixão que mantém pelo futebol, ao treinar os juniores do Ericeirense.

Quando é que surgiu a ideia de te dedicares a este negócio?
Já tinha esta ideia há muito tempo, porque quando jogava futebol o negócio já estava montado. Vem desde o meu avô e, devido à morte dele, a herança ficou para a minha mãe. A produção de azeite já é familiar e, enquanto jogava, vinha apoiar a minha mãe no negócio. Isto passava por um plano B, porque fui preguiçoso ao nível da formação académica, não fui por esse caminho, e estava descansado com o pós-futebol porque queria dar continuidade a este negócio.

Porquê esta área?
É um negócio familiar já com 80 anos. Foi fundado pelo meu avô [Gregório Afonso Júnior] e foi uma coisa que sempre gostei de fazer. Sou um privilegiado porque tive a sorte de fazer as duas coisas que mais gostava. Ser jogador profissional e depois de deixar o futebol não fiquei minimamente melindrado porque tinha outra coisa que gostava de fazer: a produção de azeite e criação de animais.

Em algum momento da tua carreira como jogador imaginaste vir a trabalhar nesta área?
Sempre. Depois de deixar de jogar sabia que ia seguir o caminho do meu avô e da minha mãe, por orgulho e por gosto, mas mais por orgulho do que tinha sido criado, para manter uma tradição com muitos anos.

Como e quando é que aprendeste a trabalhar na produção de azeite?
Desde que me lembro de ser menino. Fui criado nesta quinta com o meu avô e a minha mãe [Maria do Rosário] até aos 9 anos, quando fui viver para Lisboa. Como isto é um negócio que vem de outubro de 1943, eu ainda não existia. Desde os 2, 3 anos, o meu avô e a minha mãe trabalhavam aqui e eu andava sempre atrás. Ia para cima de um banco e ajudava sempre os colaboradores a fazer alguma coisa. Desde muito novo a viver aqui, e com os animais, e quando me tornei jogador isto já estava enraizado em mim.

“O futebol não dá para todos. Parece tudo muito bonito, muito lírico, mas dá muito trabalho. Tem de se ter muito foco e não dá para todos os jogadores.”

Nas conversas que tinhas com os teus colegas de equipa, sentias que existia preocupação com o que iam fazer quando deixassem de jogar?
Para ser muito sincero, na altura em que jogava, não havia muito essa preocupação porque também era um tema muito pouco abordado. Nunca falávamos do pós-futebol, toda a gente pensava continuar ligada ao futebol, que foi uma coisa que eu nunca pensei porque já tinha o meu plano B definido. Venho da velha guarda, que pensava 24 horas sobre futebol e na altura não havia grande preocupação com o pós-carreira. E depois vem o problema que é ninguém saber o que vai fazer quando o futebol acaba. Nesse aspeto, eu estava completamente tranquilo.

Quando é que começaste a preparar o teu futuro pós-futebol?
Desde sempre. Posso confessar que deixei de jogar futebol a meio da época e tinha duas opções. Continuar a jogar mais dois ou três anos, mas devido à doença da minha mãe agarrei logo no negócio e não tive dúvidas. Em janeiro desisti do futebol e dediquei-me ao negócio familiar.

Sentes que hoje os jogadores estão cientes de que têm de ter outra atividade quando terminarem a carreira?
É bom que estejam porque hoje o futebol não dá para todos. Parece tudo muito bonito, muito lírico, mas dá muito trabalho, tem de se ter muito foco e não dá para todos os jogadores. Um em 100 consegue atingir um nível que lhes permite viver do futebol quando acaba. Tem de haver uma informação muito grande a nível de formação académica, porque não temos só doutores e advogados. Temos muitas profissões que até permitem ganhar mais do que no futebol, porque há um engano de que o jogador ganha muito dinheiro, mas é uma percentagem muito reduzida.

Na tua opinião, quando é que deve começar a ser preparado o pós-carreira dos jogadores?
Desde o início porque não sabemos o futuro. Podemos ter uma lesão grave que nos trava logo a evolução e temos de começar a preparar-nos para a outra parte da nossa vida, que não seja o futebol. Percebermos que há sempre o sonho de criança de sermos jogadores, mas que há mais vida para além do futebol. Consegui tarde, mas consegui e temos de preparar-nos desde cedo porque não sabemos os percalços, a sorte e as oportunidades que vamos ter na carreira. O plano B tem de estar sempre presente na vida de um jogador de futebol porque, de um momento para o outro, acaba. Quando queria ser jogador fazia contas aos anos que queria jogar e quando chegávamos aos 30 anos éramos velhos e hoje é normal o Pepe jogar com 40 anos, mas na minha altura não. Eu pensava acabar a carreira em 2023 e acabei em 2017, mas tinha tudo preparado. Custou, mas passou.

“Sou o único culpado do que não consegui fazer, mas estou muito bem resolvido e tenho as ideias bem assentes.”

Sentes que é feito o suficiente para que os jogadores consigam preparar desde cedo o pós-carreira?
Hoje mais. Hoje já temos mais canais de informação que permitem aos jogadores ter uma abrangência maior do que podem fazer. Na minha altura, não, era diferente. Não havia tantos canais de informação, tanta partilha, hoje os jogadores têm essa vantagem e só não se preparam se não quiserem. Temos as redes sociais, a Internet, que na altura andava muito devagar e hoje com um clique chegamos a tudo o que queremos. Há uma maior variedade de informação que permite ao jogador preparar-se melhor.  

Além deste negócio, és treinador dos juniores do Ericeirense. É difícil conciliar as duas atividades?
Não. É difícil ter tempo para a família porque quando deixamos de jogar futebol passamos a ter fins de semana, a poder fazer coisas que não fazíamos antes, quando jogávamos. Posso confessar que quando deixei de jogar a primeira coisa que fiz foi levar os meus filhos à neve, porque nunca tinham ido. Não havia possibilidade de em fevereiro ou março ir para a Serra da Estrela, para a Serra Nevada ou para qualquer outro sítio. Foi a primeira coisa que fiz. Deixei de jogar num dia, no outro dia agarrei nos meus filhos e na minha mulher e fomos para a neve porque era uma coisa que não dava para fazer. Treinar os juniores do Ericeirense é voltar atrás, reviver o que fiz enquanto jogador, tento ser sempre sério como treinador como fui enquanto jogador e estar na parte da formação é fantástico. Ver o crescimento e o desenvolvimento dos atletas dá um gozo tremendo. Passado quatro anos de ser treinador, é engraçado, porque nunca quis ser treinador. Ser jogador era a melhor profissão do mundo, agora já percebo as guerras que os treinadores tinham, porque é difícil gerir 25 jogadores, mentalidades totalmente diferentes e conseguir unir em prol de um objetivo, mas é gratificante e engraçado preparar treinos, ver o crescimento dos jogadores e finalizar isso com os jogos. As azias como treinador são piores do que como jogador, mas é muito giro.

Se tiveres de optar por este negócio ou uma carreira no futebol como treinador principal, a qual darias prioridade?
Às duas. Para começar, a parte do treinador profissional, neste momento, não está muito presente. Divirto-me a treinar. Claro que gostava de, um dia, ser treinador profissional, porque gosto. Se se proporcionasse mantinha as duas, dá perfeitamente para fazer isso.

Que conselhos é que dás aos jogadores mais jovens?
Que estudem, que se divirtam e que percebam que o futebol é um desporto onde têm de se divertir com responsabilidade. Terem a preocupação a nível pessoal e de estudos. Quando eles têm alguma dúvida aconselho-os para nunca se esquecerem de ter um plano B. Hoje vende-se o sonho muito facilmente, parece que é tudo muito fácil, mas não é. A sorte dá muito trabalho.

Onde te vês daqui a dez anos?
Se vieres ter comigo daqui a dez anos, no mesmo sítio. Um bocadinho mais velho, mais maduro.

Realizaste todos os objetivos como jogador?
Em relação ao futebol tinha o sonho de ser jogador e chegar à Primeira Liga. Gostava de ter atingido os meus objetivos mais cedo e não os atingi por culpa própria, porque não fazia as coisas como devia. Quando decidi mudar a minha mentalidade, devido a treinadores que apanhei que me faziam acreditar que tinha mais qualidade e que podia jogar noutros campeonatos, posso confessar que me arrependo de não ter tido juízo mais cedo. Aproveitei coisas da vida, não aproveitei essa parte do futebol. Depois de chegar lá fiquei com a consciência que podia ter chegado mais cedo. Quando trabalhei para ter essa sorte já foi um bocadinho tarde, mas ainda consegui jogar na Liga Europa. Podia ter sido melhor, mas foi aquilo que fiz e que trabalhei e me permitiu chegar a essa parte. Sou o único culpado do que não consegui fazer, mas estou muito bem resolvido e tenho as ideias bem assentes.

Partilhar