“Quando fui escolhido para presidente fiquei aflito”


A propósito do falecimento de Artur Jorge, recuperamos a sua última entrevista ao Sindicato.

No dia marcado pelo falecimento de Artur Jorge, primeiro presidente e sócio número 1 do Sindicato dos Jogadores, recuperamos a última entrevista que deu à revista do Sindicato:

Só deveres e praticamente sem direitos. Era esta a realidade dos jogadores em Portugal até meados da década de 70 do século passado. Mas os futebolistas “fartaram-se” e unidos lutaram por inverter a situação e fundar o Sindicato dos Jogadores. Eleito pelos colegas, Artur Jorge teve a difícil missão de ser o primeiro presidente do SJPF. Uma época que importa recordar…

Quais os motivos que originaram à criação do Sindicato de Jogadores?
Naquela altura havia grandes dificuldades. Os jogadores tinham muito menos coisas do que têm atualmente. Um jogador ia para um clube e nunca mais se via livre desse clube. Quando os jogadores viram que essa situação não avançava para um cenário diferente, foi preciso agir. E foi o que fizemos. Sabíamos que era algo importante para nós jogadores e que existia uma enorme desigualdade com o que havia no estrangeiro. Era importante fazermos qualquer coisa para dizermos que estávamos vivos, que tinha de haver regras, que os clubes tinham de olhar para nós de maneira diferente. 

Foi o primeiro presidente do Sindicato. Como é que chegou ao cargo?
Existiram várias reuniões entre os jogadores e fui escolhido pelos meus colegas. Não sabíamos muito bem quem seria o presidente ou mesmo que iria haver um presidente. Escolheram-me a mim como poderiam ter escolhido outra pessoa.

Recebeu esse convite com agrado?
Não fiquei assim tão agradado. Quando fui escolhido para presidente fiquei aflito, não estava à espera. Fui eu como poderia ter sido mais quatro ou cinco pessoas, como o Simões, o Pedro Gomes, entre outros.

Além da criação do Sindicato, outra das suas maiores batalhas foi a filiação dos jogadores. Foi uma tarefa complicada?
É sempre assim. Essas coisas não são fáceis e demoram o seu tempo.

Durante a sua presidência aconselhou os jogadores a procurarem trabalhos paralelos de forma a acautelarem o futuro.
Em situações difíceis todos pensamos em segunda ou terceira hipóteses. Nós não sabíamos os resultados do que ia acontecer.

Deixou a presidência no final do seu mandato. Considerou que o seu trabalho estava concluído?
Sim. Nessa altura tinha também outras coisas e achei que estava no momento de sair. Pareceu-me que era importante chegar alguém novo, com outras ideias e tentar fazer mais do que nós. O Sindicato foi sempre uma organização em que as coisas correram relativamente bem e estou convencido que as pessoas fizeram um grande esforço no sentido de melhorarem uma situação que não estava boa.  

Passados 40 anos, pensa que o Sindicato cumpriu e está a cumprir o papel que levou à sua fundação?
O Sindicato tem feito um bom trabalho. Está em cima daquilo que me parece mais importante. Estão a fazer um trabalho bom, sério e isso é importante para o futebol, para os jogadores, para o País, para tudo.  

Como é que vê o facto de em Portugal ainda existirem poucos jogadores a ocuparem cargos de relevo no dirigismo desportivo após o términus das suas carreiras?
Era importante que pessoas com qualidade e com uma grande experiência como os jogadores de futebol conseguissem dar ao Sindicato de Jogadores cada vez mais força e para as pessoas entenderem que o Sindicato pode ser qualquer coisa mais. Penso que é isso que falta, no fundo, aos jogadores de futebol. Mas para mim, são situações normais que acontecem um pouco por todo o lado. Era importante que eles não se esquecessem que é importante estar presente, ajudar a gente mais nova para estes percebam que há coisas a fazer no futebol português. Penso que o Sindicato tem feito um ótimo trabalho, mas é preciso que o Sindicato seja ajudado por outras pessoas a quem o Sindicato faz bem. Seria importante com toda a gente, com as pessoas interessadas nisso e se calhar com jogadores com maior nome que as pessoas conheçam.

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