“O clube não me quis tratar. Sem o Sindicato não estaria aqui”
Charles Okwara viveu um autêntico pesadelo no Arronches e Benfica, depois de sofrer uma lesão grave.
No dia 13 de abril de 2025, ao minuto 13 da última jornada do Campeonato de Portugal, Charles Okwara viveu o pior momento da carreira.
Uma rotura do ligamento cruzado anterior no joelho e uma operação que o clube que representava, o Arronches e Benfica, se recusou a suportar, fê-lo recorrer ao Sindicato dos Jogadores, que lhe prestou todo o apoio necessário.
Um ano depois, Charles já sente o cheiro da relva, voltou aos treinos no clube que o acolheu em Portugal, o Lusitano GC, e está determinado em regressar na máxima força, na próxima época.
Porque é que vieste para Portugal?
Vim para melhorar a minha carreira no futebol porque sempre foi o meu sonho. E sei que na Europa estou mais perto de o concretizar. Por isso é que estou aqui em Portugal, para jogar futebol.
E como é que vieste jogar para cá?
Eu estava na Nigéria e fui contactado por uma agência/academia de futebol. Era muito novo e jogava numa academia chamada Garden City Panthers. O presidente do clube tratou do visto para virmos para Portugal, para um clube chamado Lusitano. Foi assim que acabei por vir para Portugal e recomeçar.
Tiveste dificuldades na adaptação ao nosso país?
Não foi fácil, porque mudar da Nigéria para Portugal não é simples. Mas no fim valeu a pena, porque quando cheguei tudo começou a correr bem.
Portugal foi a tua primeira experiência fora da Nigéria?
Não. Já tinha estado em Itália, em Turim, num torneio de jovens chamado Torneio de Viareggio. Fui observado lá, depois voltei à Nigéria e mais tarde vim para Portugal.
Preferes Portugal ou Itália?
Passei mais tempo em Portugal, por isso digo Portugal.
Sentiste-te apoiado quando chegaste a Portugal?
Sim, senti apoio do clube, do presidente e das pessoas.
A tua chegada a Portugal coincidiu mais ou menos na altura em que começou a pandemia da Covid-19. Isso afetou a tua integração no nosso país?
Sim, afetou. Quando cheguei, passado algum tempo fui para o Lusitano SAD, e foi aí que começou a Covid. Tivemos de ficar em casa, sem treinar, sem fazer nada. Foi basicamente isso.
Como é que viveste os dias em que tiveste de ficar isolado em casa?
Com as notícias de pessoas a morrer, fiquei assustado. Era muito novo e estava longe da minha família. Mas mantive-me motivado ao ver outros jogadores a manterem-se fortes.
Vieste sozinho?
Sim, vivo sozinho. A minha família está na Nigéria e espalhada pelo mundo.
Aqui estás sozinho então?
Sim, só amigos… e a minha namorada, mas também está longe.

“Senti-me abandonado pelo clube. Não me apoiaram como deviam, porque eles sabiam que era o último jogo da época e que não podíamos ir para o play-off de subida porque perdemos o jogo. Então, agiram como se eu não me tivesse lesionado lá. Foi o que aconteceu e fiquei muito zangado com toda a situação.”
Manténs contacto com a tua família que está na Nigéria?
Todos os dias. São as pessoas mais importantes da minha vida.
E os amigos do futebol?
Tenho muitos amigos. São como irmãos, são a minha família aqui em Portugal.
Quais foram as maiores dificuldades que viveste em Portugal?
A língua e o clima. A língua é mesmo difícil. No primeiro treino, o treinador disse-me para ir para trás se não entendesse português. Por isso tive de trabalhar muito para aprender.
O que já sabes dizer em português?
“Bom dia”, “volta”, “joga bem”… coisas assim.
O teu último jogo foi contra o Elvas. O que aconteceu?
Era um jogo decisivo para ir ao play-off de subida. Aos 13 minutos rompi o ligamento cruzado anterior e tive de sair.
Como te sentes em relação a isso?
Foi um dos momentos mais tristes da minha vida. Nunca tinha ficado tanto tempo sem jogar. Fico frustrado quando penso nisso, mas estou a recuperar.
O que aconteceu depois?
Senti-me abandonado pelo clube. Não me apoiaram como deviam, porque eles sabiam que era o último jogo da época e que não podíamos ir para o play-off de subida porque perdemos o jogo. Então, agiram como se eu não me tivesse lesionado lá. Foi o que aconteceu e fiquei muito zangado com toda a situação.
Porquê?
Acho que porque a época já tinha acabado. Na minha opinião, não quiseram tratar-me. Fez-me sentir mal porque se queres ser um profissional, precisas de ser profissional. Se queres ser dono de um clube de futebol, precisas de tratar todos de forma igual, os estrangeiros e os portugueses. É preciso ser direto com todos porque eu lembro-me perfeitamente de alguns jogadores que se lesionaram noutra equipa no último jogo da época e o clube mantém-se firme no apoio. Isso é profissionalismo. Esse é o trabalho dos clubes, tratar dos jogadores para que fiquem bem, mas no Arronches e Benfica foi o oposto. Não verificaram como eu estava, não fizeram nada, até que tive de contactar o Sindicato.
Quem te apoiou então?
O Sindicato dos Jogadores. Ajudaram-me em tudo, desde o primeiro até ao último dia, incluindo na cirurgia.
Quão importante foi?
100%. Desde o dia em que telefonei ao Dr. João Oliveira, liguei-lhe e expliquei-lhe a minha situação. Desde esse dia até hoje tem-me acompanhado, até eu fazer a cirurgia. Mesmo quando fui operado, ligou-me para saber como estavam as coisas. Quero mesmo agradecer muito ao Sindicato dos Jogadores porque sem eles acho que não teria feito esta cirurgia e não estaria de pé novamente.

“Um enorme obrigado ao Sindicato dos Jogadores, especialmente ao Dr. João Oliveira. Sem ele não estaria aqui. Quero agradecer-lhe muito por não me deixar ficar para trás.”
Quem pagou o tratamento?
O Sindicato pagou tudo.
E o clube?
Quero agradecer ao presidente do Lusitano de Évora. Desde que cheguei a Portugal e fui para o Lusitano, ele tem sido o melhor presidente que eu já vi. Pessoalmente, como presidente, em termos de futebol, em tudo, apoiou-me muito. Joguei lá duas épocas e quando tive este problema falei com ele. Deu-me casa, comida, fisioterapia, tudo. Foi essencial na minha recuperação.
Já voltaste a treinar?
Sim, já passaram oito meses desde a minha cirurgia, pelo que comecei a treinar agora com a equipa do Lusitano. Esta é a minha terceira semana de treino com a equipa. Inicialmente estava apenas eu, o preparador físico do Lusitano e o fisioterapeuta, Filipe Patrício. Foi ele quem me incentivou durante todo este tempo. Então agora estou a treinar e estou quase pronto para voltar a competir.
Como foi voltar ao campo?
Chorei no primeiro treino. Passei por muito. Sei muitas coisas pelas quais passei. Muito sacrifício, o trabalho árduo que fiz e tudo mais. Foi um momento muito especial.
Queres mesmo seguir o teu sonho?
Sim, vivo para isso.
Qual é a pessoa do futebol português mais importante para ti?
O meu agente, Alberto Serrano, que esteve comigo desde o início e tentou ajudar-me a subir na carreira. Diria ele e o presidente do Lusitano.
Gostarias de deixar uma mensagem de gratidão a alguém em especial?
Um enorme obrigado ao Sindicato dos Jogadores, especialmente ao Dr. João Oliveira. Sem ele não estaria aqui. Quero agradecer-lhe muito por não me deixar ficar para trás.
Quais são os teus maiores sonhos no futebol?
Chegar ao nível mais alto possível. Esse é o meu sonho no futebol. Luto por isso todos os dias
E um desejo para os próximos meses?
Começar bem a próxima época e ter uma grande temporada, porque sei que me esforcei muito para me concentrar na próxima temporada.
Sem ressentimentos?
Sim, foco-me no futuro, porque sei que ainda há muito em jogo.



