Opinião: "Demasiado óbvio"


Presidente do Sindicato dos Jogadores e a desvalorização do praticante desportivo nas políticas públicas. 

No artigo de opinião desta semana, publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, critica o facto de o desporto ter sido ignorado na elaboração do plano apresentado pelo Governo: 

"A relação entre política e desporto vive de uma contradição fundamental. Toda a classe política gosta de estar presente nos grandes eventos, poucos se preocupam em valorizar o desporto, dando-lhe um tratamento que não se quer de favor, em comparação com outros setores de atividade, mas de reconhecimento do impacto transversal à sociedade e dos resultados de natureza económica, bem como do seu contributo para o desenvolvimento e coesão social. Inquestionavelmente, um país que não promove a prática e oferta desportiva paga custos indiretos elevados.

Aquando da apresentação do Plano Nacional de Desenvolvimento Desportivo pelo Governo, vi passar de forma incólume a visão proposta por este documento estratégico que tem demasiado pouco a dizer sobre o praticante desportivo, a valorização da sua carreira e o seu estatuto profissional.

Ninguém questiona a importância do acesso universal à prática desportiva e distribuição equilibrada dos recursos, mas não se pode desvalorizar as necessidades de segmentos, como no caso do futebol, que sustentam grande parte do ecossistema desportivo.

Entretanto, parece que os praticantes passaram a integrar a visão estratégica de alguns dirigentes que até há pouco tempo limitavam-se a fazer contas às necessidades dos operadores do sistema desportivo, tendo valido a pena a luta por colocar o tema no centro da discussão.

Mais recentemente, depois dos contributos de diferentes entidades representativas do setor, em sede do Conselho Nacional do Desporto, procurou-se introduzir no chamado PTRR as matérias prioritárias para investimento na recuperação, modernização e segurança das infraestruturas desportivas, dando maior robustez aos seus agentes e capacitando-os para fazer um trabalho diário, que não se esgota na disponibilização de condições para a prática desportiva, mas na possibilidade de educar, incutir valores de cidadania e contribuir para mitigar os problemas decorrentes da falta de coesão territorial.

Para surpresa de alguns, o que era demasiado óbvio tornou-se ponto assente: o setor foi ignorado e vai ter de continuar a reinventar-se, na estratégia e no investimento.

Em duas notas finais, seguindo a comemoração do 1.º de Maio, associo-me às legítimas reivindicações de toda a classe trabalhadora que combate o pacote laboral do Governo.

As reformas não se impõem, a representatividade e contratação coletiva não se anulam e o direito do trabalho não se constrói dos gabinetes para o terreno.

Finalmente, envio um enorme abraço a toda a equipa do Sp. Braga, a um pequeno passo de voltar a fazer história nas competições europeias."

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