Opinião: "Fuga de talento: como inverter os números?"
Presidente do Sindicato dos Jogadores e a saída de futebolistas portugueses para outros países.
No artigo de opinião desta semana publicado no jornal Record, o presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista, analisa a saída de jovens jogadores portugueses para outros países:
"Um dos pilares estratégicos do Governo de Portugal é a retenção do talento jovem no país, criando apoios específicos com a expectativa de travar uma saída prematura que está, quase sempre, ligada à dificuldade em fazer vida no nosso país, perante a conjuntura social e económica. No futebol, os dados não podem ser mais expressivos acerca da fuga de talento nacional.
Além dos números preocupantes que resultam da reduzida taxa de utilização de nacionais, face ao crescimento na utilização de estrangeiros, conforme resulta do último Estudo de Utilização do Sindicato dos Jogadores, uma análise recente do CIES demonstra um crescimento de 66% nos jogadores nacionais a competir no estrangeiro, entre 2021 e 2026, o maior aumento em todo o mundo.
Destes 500 atletas fora de portas todos são histórias de sucesso dos clubes portugueses no mercado? Os nossos clubes criaram condições para que se pudessem afirmar, em alternativa, nas competições nacionais? A pirâmide do futebol nacional funcionou de forma eficaz, dando uma escolha efetiva entre aceder ao patamar profissional no nosso país ou fazê-lo no estrangeiro? Em síntese, aproveitámos todo este talento, ou passou-nos em grande parte ao lado?
Se olharmos à diversidade de países, à qualidade das Ligas e aos relatos que recebemos no Sindicato, acompanhados de cada vez mais problemas jurídicos a ocorrer fora de portas, rapidamente percebemos que Portugal não retém nem gera as oportunidades suficientes.
O argumento de que o jogador português é mais caro é totalmente falacioso. Do lado desportivo, vão entrar em vigor algumas alterações regulamentares que visam estimular a utilização e circulação de jovens formados nos clubes nacionais entre as várias competições.
Porém, no enquadramento legal do praticante desportivo profissional continua a ser preciso fazer mudanças. O reconhecimento do estatuto de atividade de desgaste rápido não é um capricho, mas um imperativo de justiça com reflexos no enquadramento fiscal, na proteção social em situações de doença ou desemprego, na carreira contributiva e acesso à reforma.
Do masculino ao feminino, falta enquadramento legal, falta uma ativação consciente do diálogo social e da contratação coletiva. Precisamos de combater novas formas de promover a precariedade e, acima de tudo, importa pensar no futuro do jogador português e na sustentação das nossas competições e Seleções Nacionais quando, em vez de olharmos para a frente, alguns ainda refletem sobre como diminuir direitos."



