“O que nos torna mais felizes é que o jogador tenha clube”
Élio Martins foi o treinador do 24.º Estágio do Jogador, iniciativa do Sindicato para futebolistas sem clube.
Aos 41 anos, e depois de orientar a equipa do Machico durante quatro temporadas, Élio Martins aceitou o desafio de ser o treinador da 24.ª edição do Estágio do Jogador.
Com um futuro bem traçado e uma carreira planeada, o antigo avançado aguarda pelo desafio certo para dar continuidade ao seu trabalho.
Élio, como foi a experiência de treinar a equipa do 24.º Estágio do Jogador?
Foi uma experiência muito enriquecedora, tanto em termos profissionais como pessoalmente, porque trabalhei com os jogadores em vários contextos, tanto em termos psicológicos como técnicos ou físicos e tive de me adaptar rapidamente ao seu contexto para ajustar o treino consoante o estado individual do jogador. Foi nesse contexto que conseguimos preparar os treinos todos os dias, para que eles estivessem mais próximos da competição.
Quando recebeste o convite para seres o treinador desta edição do Estágio do Jogador não hesitaste?
Nem hesitei. Foi um orgulho enorme. São pessoas que já conhecia e é uma experiência enriquecedora para a minha carreira como treinador de futebol e vejo este projeto com bons olhos. Sendo uma iniciativa que celebra 25 anos de existência, foi a cereja no topo do bolo uma pessoa vir da Madeira e ser o treinador principal do Estágio do Jogador. Fazer parte deste projeto foi um orgulho, não hesitei e agarrei com “unhas e dentes”.
Já tinhas conhecimento do Estágio do Jogador anteriormente? Qual era a tua opinião sobre esta iniciativa?
Já, porque sou um treinador recente, tenho cinco anos de treinador, mas antes fui jogador profissional de futebol e sabia perfeitamente o contexto. Este é um projeto espetacular porque faz progredir jogadores que estão em fim de contrato ou mal fisicamente, seja em termos psicológicos que estejam afetados, e isto é uma preparação pós-competição. É um projeto que já tem 25 anos, 24 edições de um excelente trabalho feito pelo presidente e todo o seu staff e é uma mais-valia para o jogador estar pronto a ingressar num novo clube.
Aqui o trabalho não passa por criar rotinas numa equipa para obter resultados desportivos, como vitórias, mas sim conseguir preparar da melhor forma os jogadores para oportunidades que possam surgir. Como é que se faz essa preparação?
É uma gestão que tem de ser feita diariamente porque hoje treinam 10, amanhã treinam 15 e depois treinam 30 e o treinador tem de estar preparado. Foi uma experiência fabulosa para mim, ter de reajustar o treino consoante o número de jogadores que aparecem e isso foi fabuloso. Temos de fazer sempre uma ginástica porque temos de nos adaptar ao contexto individual e coletivo e preparar os jogadores individualmente para estarem mais perto do sucesso e de uma competição, ou de uma chamada a uma equipa. É mais de ensino técnico, físico e tático do que trabalho de equipa. Analisar onde é que podemos evoluir mais cada jogador, se é na parte técnica, física ou mental. Claro que é complicado trabalhar individualmente cerca de 30 jogadores, mas dentro daquele grupo ver quais são as características que os jogadores estão a pedir e ver em que aspeto de treino temos de insistir mais, se é no aspeto técnico, tático ou mental e isso é uma das características que temos analisado e tem-me feito crescer como treinador, porque muitas vezes temos o treino preparado e temos de reajustar para que as coisas fluam. Ou temos liderança e experiência ou então é complicado.
Ao longo de oito semanas de treino, passaram por aqui 55 jogadores. Qual o maior desafio de ter um grupo tão volátil?
Todos os dias recebo uma mensagem de gratidão da parte deles e isso torna-me mais feliz, mais treinador e é essa sensibilidade que nos leva a querer projetar como treinadores e amar mais este desporto. O Estágio deu-me essa vitamina de querer ajudá-los dia a dia, preparar os treinos e desses 55 não consigo precisar bem quantos já conseguimos colocar nos clubes, mas pelas mensagens que tenho recebido é um resultado que nos orgulha. O objetivo não é ganhar o jogo, mas o que torna mais felizes é que o jogador tenha clube e que conseguimos acompanhá-lo. Estou sempre pronto a ajudar e aqui a gratidão é a colocação dos jogadores em vários clubes.
E, pelo lado contrário, qual a melhor parte de ser treinador do Estágio?
A humanidade. Socializar e trocar ideias com esta malta, ouvir as histórias dos jogadores toca-nos. Sou uma pessoa muito sensível e um treinador que dentro de campo é para trabalhar, mas fora dele farei o máximo para os poder ajudar da melhor maneira. Socializamos, conversamos, eles partilham e desabafam connosco. Temos de nos ajudar uns aos outros porque este é um projeto de colocação e muitos vêm desgastados psicologicamente e até fartos do futebol e temos de dar um feedback positivo para acreditarem que ainda é possível chegarem ao topo.

“Gosto de pressão e viver com essa adrenalina dos jogos e dos treinos é o que me cativa e me dá vida.”
Além da vertente desportiva, o Sindicato oferece aqui alguma formação aos jogadores numa tentativa de pelo menos os sensibilizar para as carreiras duais e uma transição para o pós-carreira. Julgas que essa preparação atempada é importante?
É um plano estratégico muito importante da parte do Sindicato. Enquanto treinador e ex-jogador de uma geração diferente, focava-me muito mais no desporto do que na escola e isso é algo que nunca se deve fazer. Devemos conciliar as duas coisas, porque nem toda a gente vai ser jogador e treinador, nem toda a gente é Cristiano Ronaldo, José Mourinho ou Jorge Jesus e temos de passar essa mensagem aos jogadores e dizer-lhes que têm de aproveitar a escola porque amanhã constituem uma família e precisam de um ganha-pão, que vem da parte formativa e, quanto mais preparado cultural e socialmente estivermos, muito mais fácil será arranjar um emprego e conciliar o futebol com trabalho. Não quero que eles façam o que eu fiz de errado. O Sindicato tem um papel enorme nesse projeto e até eu dou o exemplo porque estou a tirar o curso de inglês na Cambridge School e tem sido uma mais-valia para mim porque as bases aprendem-se nas formações e isso tem sido muito importante para o crescimento do jogador na parte desportiva e formativa.
No teu caso, antes do Estágio, já tinhas tido a experiência de treinar o Machico, clube onde inclusive terminaste a carreira. Foi uma transição natural e planeada passar de jogador a treinador?
Para ser sincero eu não queria ser treinador. Quando fui jogador queria deixar o futebol, estava cansado porque a exigência de elite é completamente diferente de jogar futebol amador. Estive muitos anos afastado da família, isso pesou um pouco e já estava numa fase em que estava a deixar o futebol, quis abraçar um projeto em Machico, acabar onde comecei, num clube da minha terra, que sempre adorei e nunca me passava pela cabeça ser treinador profissional, até que o Leonardo Jardim me bateu à porta e tentou dar-me a volta e dizer-me que tinha muitas qualidades e condições para ser treinador de futebol. Ele convidou-me para trabalhar com ele, entretanto surgiram outras situações e não o consegui acompanhar, e neste momento aqui estou. Comecei a especializar-me, a fazer os meus cursos, não tem sido fácil, mas com esforço chega-se lá, sou resiliente e sempre que quero alguma coisa, corro atrás, tento alcançar os meus objetivos e o caminho é para a frente.
Começas enquanto treinador-adjunto dos sub-23 do Marítimo e do Machico e depois passas a treinador principal. Este percurso foi benéfico para a tua carreira?
Sim. É muito importante um treinador ter sido jogador, mas não é tudo, se não nos formarmos, não tivermos a experiência de campo de um treinador. Fui adjunto do Tulipa, um treinador com muita qualidade, experiência e metodologia de treino, que me fez abrir horizontes e ter uma maneira de agir nos treinos e de perceber o jogo. Depois apanhei o João Manuel Pinto, no Machico, que também me fez crescer, um ser humano espetacular pelo qual tenho muito respeito. Esses passos foram muito importantes para ganhar experiência como treinador e, se Deus quiser, agora é tirar o curso UEFA Pro.
E como foi essa primeira experiência enquanto treinador principal no Machico?
Um pouco nervoso nos primeiros tempos, não a socializar com os jogadores ou a preparar os treinos, mas a ansiedade de querer ganhar logo, mostrar resultados. Entretanto as coisas foram fluindo e acabei por fazer uma boa época e boa recuperação em termos pontuais porque, entretanto, o João Manuel Pinto teve de sair e fui convidado pelo presidente Raul Miranda para abraçar este projeto e fiquei orgulhosamente satisfeito porque é o clube da minha terra, que estava a acreditar em mim e foi um trabalho muito enriquecedor para mim e para o Machico, porque consegui trazer a mística ao clube.
Tens trabalhado com jogadores jovens. É algo que te cativa?
Adoro trabalhar com jogadores jovens, gosto de apostar no jogador jovem. Se tiver qualidade aposto sem problema algum, mas também gosto de trabalhar com jogadores experientes e acho que tem de haver um equilíbrio no plantel, à volta de 80% de jogadores experientes com 20% de mais jovens.
Perspetivando o futuro, e se pudesses escolher, preferias trabalhar com as camadas jovens ou com plantéis seniores?
Neste momento sempre foi o meu foco trabalhar com seniores. Até gosto de trabalhar com jovens, mas a minha característica é a liderança e a objetividade que tenho perante os jogos. Estou mais perto de trabalhar para ganhar nos seniores do que com os jovens, em que tenho um processo em que é preciso ter calma, passo a passo, e não obter resultados rapidamente como no futebol sénior, que é o que mais me cativa. Gosto de pressão e viver com essa adrenalina dos jogos e dos treinos é o que me cativa e me dá vida.

“É importante passar degrau a degrau porque também aprendo a evoluir como treinador em cada competição, de baixo para cima.”
Até ao momento foste treinador principal no regional e no último escalão nacional. Para um treinador é benéfico passar por todos os escalões competitivos até chegar à Primeira Liga? É essa a tua intenção, subir degrau a degrau?
Não sei o que pode acontecer de hoje para amanhã, mas acho que é importante passar degrau a degrau porque também aprendo a evoluir como treinador em cada competição, de baixo para cima. Num escalão inferior temos de ser um treinador de relacionamento e mais acima um treinador de tarefa. Temos de criar um afeto com a equipa, passar a mensagem, mas eles estão ali para competir. Isso é muito importante para a evolução como treinador e o que ambiciono é subir degrau a degrau e acho que estou preparado para tal.
Acreditas que o facto de teres sido jogador é uma mais-valia para esta fase da carreira e que te dá outra “bagagem” junto dos mais jovens?
É importante, mas não só. Muitas vezes pensamos que temos as coisas controladas porque fomos jogadores, mas não é bem assim. Precisamos de toda a gente porque o futebol evoluiu de uma forma gigantesca. Estive como adjunto do João Manuel Pinto e do Tulipa e cresci muito como treinador, aprendi imenso com treinadores como Leonardo Jardim, Vítor Oliveira, Rui Bento e Ulisses Morais, que me fizeram crescer como jogador e tentar perceber como funciona a gestão de um grupo. Mas uma coisa é tentar perceber, outra coisa é trabalhar.
Já há planos para o futuro profissional? E objetivos?
Chegar o mais rápido possível à Primeira Liga, degrau a degrau, com os pés bem assentes na terra. Tenho-me formado para evoluir e dar o máximo a cada treino, jogo e ano e estamos cá para evoluir.
Onde gostavas de te ver daqui a dez anos?
Num clube profissional, estável, de Primeira Liga e ganhar títulos.
Para ti, o que é ser um treinador de futebol?
Ser um treinador de futebol, mais que liderar uma equipa, é gerir um grupo de trabalho. E isso é cada vez mais importante. Gerir pessoas é saber relacionar com o jogador, comandar uma equipa e levá-la à vitória com o nosso afeto e objetivo e passar essa mensagem ao jogador que somos só um barco e rumo a um só objetivo.
O que significou esta experiência de treinar o Estágio do Jogador?
Significou imenso porque veio trazer muito mais afeto pelo jogador, muito mais relação com o jogador, muito mais experiência como treinador porque tenho de me readaptar aos contextos em vários períodos do treino e isso foi um crescimento enorme como treinador e vai ser fulcral.






