Morte súbita. O problema que o futebol e a medicina [ainda] não travaram


João Lucas faleceu em 2015 vítima de morte súbita.

A displasia arritmogénica é uma das principais causas de morte súbita antes dos 30 anos, havendo evidências de que a prática de atividade intensa, como é o caso do desporto de alto rendimento, agrava os seus sintomas e aumenta drasticamente a probabilidade da sua ocorrência.

A morte súbita cardíaca é a principal causa de morte em atletas durante a prática desportiva. Em 2012, o gabinete médico da FIFA revelava que entre 2007 e 2012 foram contabilizados 84 casos de morte súbita no futebol, um pouco por todo o mundo. A média de idade dos futebolistas era de 24,9 anos e só 19 federações nacionais tinham um registo médico sobre este tipo de mortes, pelo que este número não indica o total de todos os futebolistas afetados, mas somente aqueles casos que foram registados.

Este ano, contabilizaram-se (pelo menos) dois casos de morte súbita no futebol: Samba Diop, 18 anos, da equipa de reservas do Le Havre, do segundo escalão do futebol francês; Davide Astori, jogador da Fiorentina, foi encontrado morto, na cama do hotel, em Udine, onde a equipa estagiava antes do jogo com a Udinese, da 25.ª jornada da Liga italiana, que viria a ser cancelada.


“A vida está primeiro”
Para a cardiologista Isabel Santos, a morte súbita continua a ser um desafio na área da saúde. Apesar de, “por um lado, sabermos que alguns tipos de patologias têm maiores índices de morte súbita, por outro não conseguimos prever exatamente quem é que vai estar em risco na população em geral”. Para a médica especialista, a capacidade de identificar populações em risco é, “ainda, muito fraca”.

“É um problema sério e daí vermos alguns casos de morte súbita em pessoas que não foram previamente identificadas. Nós [médicos] temos capacidade, em algumas doenças, de perceber que essas pessoas estão em risco de morte súbita”, explica.

Não sendo possível prever quem vai ter um episódio de morte súbita, Isabel Santos considera fundamental criar estruturas de reposta para esses casos. “Tem de existir gente treinada e equipamento adequado para tratar a paragem cardiorrespiratória, nomeadamente desfibrilhadores automáticos externos”. A legislação portuguesa obriga a isso mesmo em espaços onde, por norma, está concentrado um elevado número de pessoas.

Segundo avança a cardiologista, na população em geral a incidência de morte súbita varia entre um a dois por 1000 habitantes por ano. Já no desporto, a incidência estimada em atletas com menos de 35 anos é de 0,5 a quatro por dez mil atletas por ano. “A maior parte destes casos é causada por uma arritmia que nós não conseguimos prever quando vai acontecer”, frisa.

“O desporto é um desafio, mas existem regras. Não há uma estratégia considerada infalível, até porque assistimos a diversos casos de morte súbita. A avaliação médica para a prática desportiva e a análise pré-competição são formas de identificar alguns casos. Existem desportos com níveis de incidência surpreendentemente superiores, nomeadamente o basquetebol”, alerta.


O adeus prematuro de João Lucas
O Sindicato dos Jogadores jamais esquecerá aquele que foi um dos seus e que muita saudade continua a deixar. João Lucas, nascido a 25 de outubro de 1979, foi jogador profissional de futebol até aos 27 anos.

Em março de 2008, foi-lhe diagnosticada uma displasia arritmogénica do ventrículo direito, cuja causa se deve a uma mutação genética que altera a estrutura do coração e provoca o mau funcionamento do órgão.

Após terminar a carreira profissional, integrou a estrutura do Sindicato dos Jogadores para também ele ajudar na luta por um futebol mais justo. Durante sete anos exerceu funções de delegado do Sindicato com a mesma qualidade, disciplina e resiliência que emprestava à sua atividade como futebolista profissional.

A 26 de maio de 2015, João Lucas faleceu por motivo da doença que o tinha afastado do seu exercício profissional. “Perdeu-se um jogador exemplar, um delegado humano, mas, sobretudo, um grande amigo”, lamenta o presidente do Sindicato, Joaquim Evangelista.


O "feliz" caso de Fábio Faria
O ex-defesa central, que representou clubes como Benfica, Paços de Ferreira e Rio Ave, abandonou o futebol aos 23 anos devido a problemas cardíacos.

Foi no dia 4 de fevereiro de 2012, na partida da Taça da Liga entre Moreirense e Rio Ave, que Fábio Faria se sentiu indisposto. Foi-lhe diagnosticada uma anomalia cardíaca que o forçou a desistir da carreira de jogador de futebol com apenas 23 anos.

Sobre esse período, quando lhe foi diagnosticado o problema cardíaco, Fábio confessa: “Foi complicado. Na altura não sabia bem ao certo o que era, mas ao descobrir fiquei muito triste. Desde pequeno que sempre sonhei ser jogador de futebol, sempre pratiquei desporto e nunca tive nenhum problema”.

Quanto à prevenção deste género de problemas cardíacos, o jovem, agora com 29 anos, afirma: “É complicado descobrir. Sempre fiz exames médicos e estava sempre tudo bem, nunca se previu que isto fosse acontecer. São coisas que acontecem no momento e ninguém está à espera”.

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